
Imaginem a cena: começo de modelo, todo mundo bem vestido, os diretores organizam as coisas na mesa, os delegados começam a puxar aquelas conversas laterais com ou sem segundas intenções, aquele ritual de praxe. O diretor dá dois toques no microfone e anuncia o começo da sessão. Mas antes de mais nada, a apresentação. Um a um os delegados falam seu nome, de onde vem e sua experiência em modelos. É o famoso comitê dos novatos, a maioria começando no magnífico mundo da modelagem. Eis que lá pras tantas, cai a bomba: Fulaninho, vindo de tal lugar, 25 modelos nas costas. Silêncio sepulcral no ambiente. É assim que geralmente começa o dia do delegado radioativo.
Delegados radioativos são uma sub-espécie de delegados experientes: aqueles cuja presença simplesmente contamina o comitê. Há outros que conseguem manter o low-profile, mas não este. O delegado radioativo é famoso por, bastando existir naquele lugar, ser um incrível vetor de confusão.
Delegados experientes são uma faca de dois gumes. Eles podem levar um comitê nas costas - o que é indesejável, mas em último caso pode ser proveitoso - ou destruir uma simulação forçando aos outros representantes situações que eles não estão preparados/capacitados a lidar. Todo mundo conhece uma história de algo parecido, e nestes tempos em que as mesas estão ficando cada vez pior preparadas, o fenômeno fica mais e mais preocupante.
Ser radioativo não é fazer bobagem no comitê, e é isso que o distingue de um dele-sem-noção. Ser radioativo é fazer as coisas que estão AO ALCANCE e SOB AS REGRAS, e ainda assim ter capacidade de implodir um comitê. Ou seja, você segue as regras mas por uma razão ou outra o comitê está especialmente frágil, e descamba sem razão aparente. Quando menos se espera, o dele-césio já montou no comitê só fazendo seu trabalho, sem absurdos.
Ser radioativo não é motivo de orgulho nem vergonha, conheço algumas pessoas em especial que simplesmente o são e não tem como evitar. É só entrar pela porta do comitê pra ver o holofote do caos e olhares temerosos da mesa. Mas apesar do potencial para confusão, um delegado experiente pode se tornar o melhor amigo da mesa (sem vendidagem), e servir de norte pra toda a simulação. Mais uma vez, é uma situação cheia de exemplos práticos. A questão é: como domar o monstro radioativo e impedir que ele esmague toda a simulação tão cuidadosamente planejada?
Primeiro ponto: Faça um projeto de comitê à prova de falhas. Na verdade você não tem como garantir que não haverá falhas, mas se esforce pra chegar o mais perto disso segundo seus conhecimentos. Peça conselhos e ajuda de outros modeleiros, estude como comitês semelhantes foram feitos em outros lugares. Veja quais foram os problemas. Falhas de design são a principal causa de implosão de comitês e de supremacia dos delegados radioativos. Com um comitê bem amarrado, esses delegados tem menos margem pra usar de suas técnicas e táticas - corretas, frise-se - para desequilibrar o comitê.
Segundo ponto: Uma mesa bem treinada estará apta não só pra de fato moderar o debate como, se for necessário, chamar o dele-plutônio pra uma conversa no canto e pedir pra ele pegar leve. Isso pode não ter resultado, mas geralmente já ajuda pra que ele se contenha um pouco, e delegados experientes em geral valorizam a camaradagem na modelândia e conseguem se colocar na posição de um diretor em apuros vendo seu barquinho ir à pique.
Terceiro ponto: Faça uma designação de países bem-feita. Esse é um tópico que ainda não abordamos de forma satisfatória aqui, mas a designação de países é crucial pro equilíbrio do comitê. Se o cara tem trinta simulações, pede EUA e você dá pra ele Zâmbia, você cria um problema TERRÍVEL. Você provavelmente terá um EUA contestado a cada cinco minutos e um delegado da Zâmbia preparado pra espancar Condolezza Rice até ela aprender suahili. Nesse caso a melhor saída pra você é o delegado experiente se desmotivar e ficar num canto, melancólico - desnecessário dizer, é um desperdício de experiência que poderia ser empregada no comitê. O pior que pode acontecer? O pior que pode acontecer? Imagine o pior desastre diplomático da história e multiplique por vinte, e você vai ter um vislumbre do caos em potencial representado por um delegado radioativo, que pode pisar e humilhar os países principais, destroçando as chances que o comitê possuia de chegar a algum lugar. E se isso acontecer, a culpa vai ser exclusivamente da mesa, que não soube fazer seu trabalho.
Essa inclusive é a grande lição sobre os delegados radioativos. Se a mesa fizer seu trabalho direito, eles não vão incomodar. Os diretores do Brasil precisam ter em mente que ter delegado experiente não é só bônus, mas também ônus. Significa estudar mais e mais, pois se você precisa saber mais do assunto que seus delegados, este é um delegado que muito provavelmente já começa sabendo muito mais que você. É claro que os delegados experientes sempre podem ter um surto imprevisível - mas os novatos também podem. A diferença é que no caso dos participantes tarimbados, o estrago pode ser muito, muito maior.
O delegado radioativo é uma força da natureza que pode e deve ser respeitada e usada para o bem do comitê. Caso a mesa falhe em dimensionar os riscos, seu modelo pode ter seu futuro arriscado: depois de uma catástrofe dessas só o que resta são os destroços e o fracasso que afastará as pessoas durante muito tempo. Vocês sabem, mesmo com todos os riscos, ainda acontecem desastres assim o tempo todo.

