domingo, 23 de março de 2008

O Delegado Radioativo


- Gwaaaaaaar!

Imaginem a cena: começo de modelo, todo mundo bem vestido, os diretores organizam as coisas na mesa, os delegados começam a puxar aquelas conversas laterais com ou sem segundas intenções, aquele ritual de praxe. O diretor dá dois toques no microfone e anuncia o começo da sessão. Mas antes de mais nada, a apresentação. Um a um os delegados falam seu nome, de onde vem e sua experiência em modelos. É o famoso comitê dos novatos, a maioria começando no magnífico mundo da modelagem. Eis que lá pras tantas, cai a bomba: Fulaninho, vindo de tal lugar, 25 modelos nas costas. Silêncio sepulcral no ambiente. É assim que geralmente começa o dia do delegado radioativo.

Delegados radioativos são uma sub-espécie de delegados experientes: aqueles cuja presença simplesmente contamina o comitê. Há outros que conseguem manter o low-profile, mas não este. O delegado radioativo é famoso por, bastando existir naquele lugar, ser um incrível vetor de confusão.

Delegados experientes são uma faca de dois gumes. Eles podem levar um comitê nas costas - o que é indesejável, mas em último caso pode ser proveitoso - ou destruir uma simulação forçando aos outros representantes situações que eles não estão preparados/capacitados a lidar. Todo mundo conhece uma história de algo parecido, e nestes tempos em que as mesas estão ficando cada vez pior preparadas, o fenômeno fica mais e mais preocupante.

Ser radioativo não é fazer bobagem no comitê, e é isso que o distingue de um dele-sem-noção. Ser radioativo é fazer as coisas que estão AO ALCANCE e SOB AS REGRAS, e ainda assim ter capacidade de implodir um comitê. Ou seja, você segue as regras mas por uma razão ou outra o comitê está especialmente frágil, e descamba sem razão aparente. Quando menos se espera, o dele-césio já montou no comitê só fazendo seu trabalho, sem absurdos.

Ser radioativo não é motivo de orgulho nem vergonha, conheço algumas pessoas em especial que simplesmente o são e não tem como evitar. É só entrar pela porta do comitê pra ver o holofote do caos e olhares temerosos da mesa. Mas apesar do potencial para confusão, um delegado experiente pode se tornar o melhor amigo da mesa (sem vendidagem), e servir de norte pra toda a simulação. Mais uma vez, é uma situação cheia de exemplos práticos. A questão é: como domar o monstro radioativo e impedir que ele esmague toda a simulação tão cuidadosamente planejada?

Primeiro ponto: Faça um projeto de comitê à prova de falhas. Na verdade você não tem como garantir que não haverá falhas, mas se esforce pra chegar o mais perto disso segundo seus conhecimentos. Peça conselhos e ajuda de outros modeleiros, estude como comitês semelhantes foram feitos em outros lugares. Veja quais foram os problemas. Falhas de design são a principal causa de implosão de comitês e de supremacia dos delegados radioativos. Com um comitê bem amarrado, esses delegados tem menos margem pra usar de suas técnicas e táticas - corretas, frise-se - para desequilibrar o comitê.

Segundo ponto: Uma mesa bem treinada estará apta não só pra de fato moderar o debate como, se for necessário, chamar o dele-plutônio pra uma conversa no canto e pedir pra ele pegar leve. Isso pode não ter resultado, mas geralmente já ajuda pra que ele se contenha um pouco, e delegados experientes em geral valorizam a camaradagem na modelândia e conseguem se colocar na posição de um diretor em apuros vendo seu barquinho ir à pique.

Terceiro ponto: Faça uma designação de países bem-feita. Esse é um tópico que ainda não abordamos de forma satisfatória aqui, mas a designação de países é crucial pro equilíbrio do comitê. Se o cara tem trinta simulações, pede EUA e você dá pra ele Zâmbia, você cria um problema TERRÍVEL. Você provavelmente terá um EUA contestado a cada cinco minutos e um delegado da Zâmbia preparado pra espancar Condolezza Rice até ela aprender suahili. Nesse caso a melhor saída pra você é o delegado experiente se desmotivar e ficar num canto, melancólico - desnecessário dizer, é um desperdício de experiência que poderia ser empregada no comitê. O pior que pode acontecer? O pior que pode acontecer? Imagine o pior desastre diplomático da história e multiplique por vinte, e você vai ter um vislumbre do caos em potencial representado por um delegado radioativo, que pode pisar e humilhar os países principais, destroçando as chances que o comitê possuia de chegar a algum lugar. E se isso acontecer, a culpa vai ser exclusivamente da mesa, que não soube fazer seu trabalho.

Essa inclusive é a grande lição sobre os delegados radioativos. Se a mesa fizer seu trabalho direito, eles não vão incomodar. Os diretores do Brasil precisam ter em mente que ter delegado experiente não é só bônus, mas também ônus. Significa estudar mais e mais, pois se você precisa saber mais do assunto que seus delegados, este é um delegado que muito provavelmente já começa sabendo muito mais que você. É claro que os delegados experientes sempre podem ter um surto imprevisível - mas os novatos também podem. A diferença é que no caso dos participantes tarimbados, o estrago pode ser muito, muito maior.

O delegado radioativo é uma força da natureza que pode e deve ser respeitada e usada para o bem do comitê. Caso a mesa falhe em dimensionar os riscos, seu modelo pode ter seu futuro arriscado: depois de uma catástrofe dessas só o que resta são os destroços e o fracasso que afastará as pessoas durante muito tempo. Vocês sabem, mesmo com todos os riscos, ainda acontecem desastres assim o tempo todo.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A MODERAÇÃO GREGA É LINDA

Novembro de 2006. Eu e meu colega de trabalho, Emb. Guilherme Marques, fomos a Nova Iorque (Porto Alegre) para representar a Grécia no Conselho de Segurança.

Era o ano em que o AMUN e o UFRGSMUN inauguravam a prática de regras comuns. Todos os comitês usariam as mesmas regras, e os respectivos CSs adotariam os mesmo procedimentos especiais.

Incluindo a melhor terceirização que já aconteceu no Fantástico Mundo dos Modelos: os delegados moderam.

A moderação por delegados tem vários méritos. Primeiro, é uma terceirização não-tucana (olha meu lado Zé Simão). Segundo, libera braços. São pelo menos dois braços a mais para a Mesa fazer crises, redigir cartas, cuidar de zicas diversas. Mas fica melhor ainda. Não tem lista de discursos. Menos dois braços administrando flip-chart e riscando nome de país em papel kraft.

E foi o que aconteceu naquele UFRGSMUN e outros CSs. Uma enxurrada de notícias da CNN, cartas de nossos chefes, notas da mais recente 'teligença sobre este ou aquele evento. Tudo preparado e redigido pela Mesa, que podia fazer isso porque, ora, não estava moderando.

A segunda sessão do CSNU seria moderada pela Grécia. Foi aqui que decidi usar a oportunidade para mostrar a Nova Iorque um fantástico sistema de moderação. Na minha opinião, o melhor.

O ARROZ À GREGA - Todo mundo sabe que o UFRGSMUN é o arroz com feijão da vovó. Só simula o básico, mas é uma delícia. Pra lá de caprichada. Mas a partir dali, pelo menos durante aquele CS, o arroz seria à grega.

Cheguei pra Mesa e perguntei se poderia, na Presidência do CS, apresentar um novo sistema de moderação. A Mesa consentiu e disse que, não dando certo, reverteria ao velho sistema. Ufa. Até hoje agradeço aos Diretores, por terem aceito pelo menos conhecer uma idéia nova.

O que ficaria conhecido como moderação grega não tem nada de novo. É usada desde os começos da sociedade internacional como a conhecemos: usei-a ainda em 1648, no TEMAS Soberania. Fiz isso porque dias antes eu visitei reunião do BID aqui em BH e vi como delegados de verdade debatem. Por meio de algum misterioso e silencioso mecanismo, eles conseguiam comunicar ao Presidente da mesa que queriam falar, e este os reconhecia numa ordem que eu não conseguia decifrar, mas tudo transcorria de forma ordeira. O que diabos eles faziam para sinalizar ao Presidente que queriam falar? E isso sem necessidade do Presidente ficar repetindo aquele ladainha: "delegados que queiram se pronunciar..."

Então veio o estalo. As plaquinhas. Eles levantavam as plaquinhas. Mas não como nos debates moderados de modelos - ao pedido do Presidente, e várias vezes até ser reconhecido. Eles levantavam as plaquinhas e deixavam-nas de pé. Então, aguardavam sua vez.

É isto a moderação grega - um debate moderado permanente, como pretendem as regras unificadas BSB-POA; mas em vez da Mesa perguntar quem quer falar entre um discurso e outro, os delegados deixam as placas de pé e a Mesa vai reconhecendo.

Usei essa moderação em Vestfália. Repeti em Munique, na SiEM. Usei de nova na minha OTAN, no MINI-ONU. A experiência no UFRGS seria a quarta vez.

PORQUE É MELHOR - A moderação grega é melhor que o debate moderado por uma simples constatação: tem todas as vantagens e nenhuma das desvantagens. É matemático.

Vamos analisar debate moderado normal x moderação grega.

VANTAGENS DAS DUAS

Maior fluidez - em vez de chamar delegações com base numa ordem fixa, pré-programada e cujo único critério de ordenamento é a decisão arbitrária de quem está com a caneta hidrocor na mão (qual placa ele vê primeiro?), no debate moderado apenas quem tem algo a falar sobre o assunto em pauta/quente será reconhecido. Na grega também.

Maior relevância - o delegado que pôs o nome na lista na sessão anterior e já se esqueceu do porquê não será reconhecido. Nem no moderado normal, nem na grega.

Mais responsividade - um delegado que acusou outro ou faz uma insinuação pode ser respondido na hora, dependendo se a Presidência achar relevante e se não achar que ao fazer isso está "deixando-se levar". De novo, ponto pro moderado normal e pra grega.

Mais falas - na lista de discursos, você só pode falar de novo colocando-se ao final da lista. Mas às vezes isso é distorção porque seu país está no centro do debate. No moderado pode ser que você fale de novo depois de apenas dois ou três discursos. Ponto pra ambos.

VANTAGENS EXCLUSIVAS DA GREGA

Conforto - somente a grega tem a vantagem do conforto: você não precisa ficar com a placa na mão e no aguardo, igual você faz com o câmbio de marcha do seu carro quando o sinal está vermelho. Basta deixar ela de pé, quieta. Vantagem relacionada: tocando menos na placa, você destrói ela menos.

Saliva - Já é muito chata a ladainha "algumaquestaooumoçao?". Corte pelo menos a outra, "delegadosquequeremsepronunciarporfavorlevantemasplacas", logo substituído pelo "delegadosquequeremsepronunciar..." e já vi até mesmo um simples: "países...!"

DESVANTAGEM DA NORMAL

Irrealismo - embaixadores de verdade e Chefes de Estado não passam pela situação, um tanto humilhante, de levantar plaquinha e não serem reconhecidos. Nem de ficarem levantando plaquinha um monte de vezes, um gesto meio infantil que mais lembra aulinha de ginasial, tentando chamar atenção da professora. Diplomatas não são Hermione Granger para ficar levantando mãozinha. Ponto para a grega, que não tem isso; já o moderado perde.

DESVANTAGEM ALEGADA DA GREGA, MAS FALSA

"É como lista de discursos" - existe a alegação de que a moderação grega é uma lista de discursos disfarçada, porque a Presidência pode anotar quem levantou placa no momento em que o fez, criando uma lista cronológica de quem pediu a palavra primeiro. Isso contudo, é simplesmente não entender todo o propósito da moderação grega, que é justamente dar liberdade pra Mesa escolher, das plaquinhas levantadas, quem deve falar agora. Há também um princípio parlamentar simples, e comum a zilhões de congressos e Congressos mundo afora, segundo o qual quem ainda não se pronunciou tem precedência sobre quem já falou. O que permite vários fura-filas, se bem que não existe fila.

CONCLUSÃO - A moderação grega é não apenas linda, mas foi um sucesso. Depois da segunda sessão, todas as outras adotaram o mesmo sistema. No meu entendimento, isso quer dizer que não apenas a Mesa, mas também nossas delegações-colegas, testaram e aprovaram.

Adote uma grega você também.

(foto: Dora Bakoyannis, a charmosíssima Ministra das Relações Exteriores da Grécia)

quinta-feira, 6 de março de 2008

WorldMUN 2008 urgente!

Modelândia,

Se alguém tiver interesse em ir ao WorldMUN 2008, a delegação da UnB tem uma vaga sobrando e está precisando de gente. O evento será realizado em três semanas na cidade de Puebla, México, por isso o regime de urgência. Interessados favor contatar Maria Beatriz Campedelli (pelo orkut ou pelo blog, ela não deixou e-mail ;P),

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O blog RotW/Modeleiro dá as boas vindas a seu novo colaborador!


Os mais perspicazes entre os nossos leitores já devem ter notado um pequeno detalhe há mais ou menos uma semana presente neste blog: um nome novo na delegação!

É isso mesmo, temos a satisfação de anunciar um novo membro em nossas fileiras! O paulista Guilherme Pastore vai se apresentar oportunamente, mas acredito que seja um exemplo daquilo que esse blog preza e estimula: excelência e novas idéias. Como estamos atravessando um momento de reciclagem em nossas fileiras, renovamos nosso convite pra que interessados colaborem enviando artigos, posts, curiosidades e etc. A janela de transferências da modelândia felizmente ainda não fechou e provavelmente teremos mais adições, mas não queremos que vocês esperem por nós: se tem uma idéia legal, um insight que gostaria de compartilhar, este espaço é de vocês.

Vamos correndo que o TEMAS já tá em cima! ;P

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Raízes da Vendidagem - Parte II

Terminei o último post falando sobre a evolução do conceito de vendidagem até os dias de hoje, e como há duas concepções a respeito do mesmo fenômeno: uma boa vendidagem, aceita (ou ao menos tolerada) no meio social da Modelândia, e uma má vendidagem, que não tem esta mesma aceitação.


Antes de entrar em maiores detalhes nisto, no entanto, vale aqui fazer uma consideração (e também uma curta digressão pessoal) sobre um fator muito importante no desenvolvimento da vendidagem – o prêmio.


De uma certa forma, a existência do prêmio foi fundamental para o desenvolvimento da vendidagem, em formas que discutiremos adiante. No entanto, alguns modelos mais antigos (como a SiNUS, desde 2002) e principalmente desde 2005 (com a mentalidade prizeless is priceless do primeiro TEMAS), tem acumulado força um movimento em alguns modelos brasileiros de não distribuir prêmios aos delegados (ou delegações), optando por avaliá-los de alguma outra forma, tendo cada modelo seu próprio estilo de avaliação.


Como dito antes, o meio ambiente modeleiro propiciou o desenvolvimento da vendidagem, e os prêmios dados aos delegados considerados vendidos garantiu a sobrevivência deste comportamento. Mas ao contrário das expectativas, a eliminação dos prêmios em determinados modelos não acabou com a vendidagem – esperava-se que a eliminação dos prêmios acabaria com o tipo de vendidagem predatória que muitas vezes ilude os diretores e incomoda os delegados. Não foi bem isso que aconteceu.


Por conta disso, eu optei por dar um pouco menos de relevância aos prêmios em si para focar mais no desenvolvimento da vendidagem como um fenômeno de comportamento que prosperou in full force no ambiente modeleiro brasileiro. Certamente teve impacto, mas de alguns anos para cá perdeu bastante espaço em relação ao que tinha antes, e isso prova que a vendidagem consegue caminhar com as próprias pernas. Mesmo assim, o prêmio continua tendo uma influência indireta sobre a evolução da vendidagem, como voltarei a abordar em seguida.


Relembrando as variáveis da vendidagem que apresentamos no finalzinho do último post, o bom vendido é aquele que sabe utilizar os dons da retórica e da oratória, bem como o uso racional das regras e de documentos, para convencer e direcionar de maneira construtiva os debates para um rumo mais favorável à sua política externa. São basicamente as qualidades de qualquer bom delegado, com a diferença fundamental que o vendido sabe se apresentar, aparecer e ser lembrado como ninguém.


O mau vendido, por outro lado, embora faça uso dos mesmos artifícios, o faz de uma maneira destrutiva: ao invés de convencer, manipula sem rumo e abusa de dramatizações; deixa de usar as regras de forma moderada para abusá-las sem dó nem piedade; muitas vezes atropela sua própria política externa na crença, de certa forma maquiavélica, que irá atingir seus objetivos (isso quando não o faz por simples desejo de massagem no ego ou por diversão egoísta).


Estes são apenas estereótipos; como ninguém é perfeito nem uniformemente comportado, mesmo bons delegados às vezes escorregam nos excessos, e delegados abusados mostram lampejos de virtude. E é aí que mora o perigo.


Distinguir entre o bom e o mau vendido é uma atividade que requer alguma experiência prévia em modelos. Quem souber o funcionamento esperado de um comitê saberá entender quando que um delegado está contribuindo para o debate e compreendendo as regras e quando não está; desta forma, o diretor, que é a principal entidade responsável pela tarefa de identificar os bons e os maus, saberá como contornar eventuais delegados que prejudicam o debate (através de mecanismos próprios da simulação, como cartas de governo e intervenções) e premiar ou incentivar os delegados que contribuem algo para o debate.


Só que nem sempre nós podemos contar que todos os diretores em um modelo saberão como distinguir os bons dos maus, ou deixando de reconhecer bons delegados que atuam mais discretamente para dar atenção a delegados que mais se preocupam em aparecer do que contribuir com o debate. Isto é em parte decorrente da nossa própria percepção sobre o desenvolvimento de MUNs como duelos de oratória e retórica, e não como negociações diplomáticas propriamente ditas.


Apesar da minha preferência pessoal por avaliações individuais em detrimento de prêmios, eu tenho que admitir que os prêmios levam uma vantagem por serem um instrumento que tem a capacidade de tornar públicos os bons exemplos escolhidos por um bom diretor, consciente do que faz um bom delegado e, conseqüentemente, o bom vendido. O problema é que é uma faca de dois gumes: da mesma forma, os prêmios também podem valorizar erroneamente os maus vendidos, que participam de modelos exclusivamente com o intuito de ganhar um prêmio (deixando de lado a experiência acadêmica que é a própria simulação) e este tipo de conduta acaba por se espalhar, gerando mais exemplos de má vendidagem (que se espalha mais facilmente do que a boa vendidagem).


Para agravar a situação, talvez em razão da distância temporal entre o surgimento do termo "vendido" e o "boom" modeleiro no Brasil, muitos delegados (principalmente de ensino médio) se chamam de vendidos entre si, se orgulham de ser vendidos, colocam como objetivos em um modelo se comportar como um vendido. Needless to say, quando não existe uma concepção correta sobre o que é o vendido, sua origem, sua conotação e suas variações, os resultados podem ser desastrosos, com muitos delegados se desestimulando ou por não poderem se comportar como imaginam ser a forma "correta", ou por se sentirem intimidados por esses delegados que agem como maus vendidos sem saberem que o são.


O comportamento de um delegado em um modelo é algo completamente imprevisível; não sou psicólogo para saber dizer de que forma um delegado de primeira viagem, ou com vinte modelos nas costas, se comportará quando se deparar com determinada situação. A vendidagem tem tantas variações quanto há delegados dispostos em se empenhar em participar de modelos seriamente. É simplesmente impossível "controlar" os delegados para impedir algum comportamento deletério ao debate, não importa quantos treinamentos e clubes de simulação organizemos.


Tudo bem, se formos diplomatas nós lidaremos com colegas de trabalho com comportamentos menos "éticos", por assim dizer, ou com ameaças, ou com outras situações que fugiriam das regras comumente aceitas para discussões civilizadas. Mas há uma grande diferença neste tipo de situação para os exemplos de má vendidagem que vemos em modelos: no mundo real, diplomatas não têm (muita) margem para a criatividade ou para o exibicionismo, salvo em ocasiões raras, nem eles ganham "prêmios" por suas atuações (não no sentido modeleiro). Em modelos, e especialmente na Modelândia brasileira, um delegado que resolve dar asas à imaginação pode ser desastroso para um comitê, e ainda ser premiado por isso (ou pelo menos não ter como ser impedido) se cair sob a tutela de diretores inexperientes.


Como podemos ver, a situação é bem complexa. Os bons vendidos estão em extinção; maus vendidos são erroneamente premiados, e seu comportamento se multiplica por delegados mais novos e com pouca experiência; diretores que cresceram com esse ambiente de ambiguidade não conseguem distinguir o joio do trigo da vendidagem; bons delegados em potencial desistem de continuar na Modelândia por não terem espaço em um evento que deixou de ser uma simulação de negociações diplomáticas para ser um concurso de caras, poses e discursos.


Eu não saberia dizer se há uma solução rápida e/ou efetiva para esta situação. Se houver, gostaria de ouvi-las nos comentários, e no próximo post da série comentaremos sobre maiores desenvolvimentos.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Raízes da Vendidagem - Parte I

(Ante scriptum: resolvi dividir o tópico vendidagem em posts separados. Este tratará da evolução do conceito de vendido desde sua concepção até a visão que temos hoje da matéria. O próximo post será mais analítico, falando dos inner workings da máquina da vendidagem, seus efeitos positivos e negativos na Modelândia e quais são as perspectivas futuras a respeito. Um possível próximo post abordará eventuais questões levantadas pelos leitores nos comentários.)


Eu não lembro quando me foi feita a primeira menção ao termo "vendido" em um modelo. Sei que foi cunhado em 2003, no AMUN daquele ano (meu primeiro modelo), em "homenagem" a um agora aposentado modeleiro da Vetusta Casa da PUC-Minas.


As circunstâncias da criação do termo "vendido" foram um tanto curiosas – o termo surgiu durante uma festa, em uma discussão acalorada a respeito da dinâmica de um comitê então simulado, e a partir de um círculo de amigos popularizou-se durante o modelo. (O Napoleão presenciou a cena, e poderá contar com maiores detalhes posteriormente; nisso eu infelizmente tenho poucos detalhes, e qualquer contribuição será bem vinda.)


Só que depois dessa gênese, o "vendido" acabou tomando figura própria, e tornou-se a gíria mais popular e característica da Modelândia brasileira sem que muitos soubessem exatamente o porquê disso. Salvo por aquele momento inicial em que foi criado, quando o significado do termo era entendido por um pequeno grupo de pessoas, o tema "o que é ser um vendido" tem sido objeto de longos papos em bares por modeleiros empolgados.


O "vendido" não é uma criação modeleira - longe disso. O termo é até dicionarizado: um dos usos figurativos do verbo "vender" (ou "se vender") é "praticar atos indignos por interesse" (cliquem aqui, pesquisem por "vender" e vejam). Nas circunstâncias modeleiras, foi utilizado primeiro em um sentido pejorativo, próximo desse sentido original, com um delegado reclamando das práticas (em tom de brincadeira, mas ainda assim com uma conotação pejorativa) de um outro colega de comitê.


Uma possível definição de vendidagem adaptada especificamente ao mundo modeleiro foi apresentada e comentada em 2006, em um artigo (que em breve será disponibilizado na Biblioteca daqui) escrito pelo então Deputy-Secretary-General for Academic Affairs do AMUN 2006, hoje diplomata, João Vargas:


"To be “sold out” [vendido] is to sacrifice one’s foreign policy in the interests of one’s ego, to make overly dramatic speeches, to make a point of demonstrating one’s knowledge of the most obscure rules of procedure. On the one hand, the endless calls of “Vendido!” are a manifestation of the easy camaraderie and informality that are an essential part of Brazilian MUNs; on the darker side, they are a sign that too often, what should be arenas of negotiation have become spotlights for posturing."


(Nota: uma tradução mais correta para "vendido" seria "sellout", uma gíria existente e usada em inglês; de acordo com o Oxford Dictionary, significa "a betrayal of one's principles for reasons of expedience", o que parece bem consistente com a idéia atual de um vendido. De qualquer forma, o ponto levantado ainda é válido.)


Esta definição foi apresentada, no artigo, em um momento em que o autor discutia sobre as diferenças de procedimento e dinâmica entre modelos norte-americanos (dos quais os modelos brasileiros são, ao menos em sua origem, "filhotes") e brasileiros. A vendidagem seria evidência e, talvez, um efeito colateral de um estilo de modelar, ao que me consta, tipicamente brasileiro: uma forte ênfase em debate formal, reconhecer a eficiência de um delegado como equivalente à sua disposição em falar em público (por mais que o conteúdo dos discursos deixe a desejar), e uma necessidade de mostrar conhecimento de uma forma ou de outra ainda que isso faça com que o delegado pareça arrogante.


Percebam que há uma sutil diferença entre a definição dicionarizada de um vendido (que por si só é perfeitamente aplicável ao mundo modeleiro e que, por uma questão lógica, deve ter sido a definição original) e a apresentada por João Vargas em seu artigo. A rápida evolução e a popularização dos MUNs acabou criando uma imagem própria do que é ser um vendido, uma definição à nossa maneira e adaptada à realidade modeleira brasileira, apresentada por Vargas no artigo.


No entanto, esta definição (que é apenas uma possível, como pudemos ver nos comentários ao post que fiz antes deste) tem uma conotação ambígua. Em um ambiente modeleiro que dá maior ênfase à "presença de palco", por assim dizer, fazer discursos dramáticos e mostrar conhecimento das (às vezes confusas) regras de procedimento, por exemplo, chamam a atenção positivamente de uma parte dos modeleiros (especialmente os novos), e não negativamente (como alguns dos modeleiros mais calejados, adeptos da discrição, achariam).


O ambiente no qual a maioria de nós se familiarizou com MUNs propiciou a "mutação" da idéia exclusivamente negativa de um vendido para uma mais positiva (ou construtiva). Como foi levantado nos comentários anteriores, pelo menos até alguns anos atrás, alguns "vendidos" eram considerados benéficos ao debate, por serem pessoas realmente dispostas a incorporarem o papel de representar o seu país, às vezes até de forma exagerada, o que ajudava o fluxo do debate e mesmo a orientação dos delegados.


Temos, então, duas correntes diferentes, simultâneas e, de certa forma, contraditórias sobre o mesmo conceito - gerando assim o que chamamos hoje uma vendidagem positiva ("boa" vendidagem) e uma vendidagem negativa ("má" vendidagem). O que é cada tipo de vendidagem abordarei no próximo post.


Ambos os tipos, porém, contêm uma raiz única, implícita no conceito original de vendidagem e explícita na definição de João Vargas – a valorização, intencional ou não, construtiva ou não, de determinadas qualidades puramente individuais (como oratória e dramatização) que fazem com que o foco de discussão de um comitê seja desviado em maior ou menor grau do assunto principal em função dos trabalhos ou manipulações de um único delegado (ou delegados), de modo que este(s) possa(m) obter resultados às vezes mais satisfatórios para seu(s) ego(s) e/ou para sua(s) política(s) externa(s). Isto, acredito eu, é a essência da vendidagem. Notem que há uma série de variáveis nesta essência, e são elas que determinam o que é o bom ou o mau vendido.


More to come very soon.