sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O blog RotW/Modeleiro dá as boas vindas a seu novo colaborador!


Os mais perspicazes entre os nossos leitores já devem ter notado um pequeno detalhe há mais ou menos uma semana presente neste blog: um nome novo na delegação!

É isso mesmo, temos a satisfação de anunciar um novo membro em nossas fileiras! O paulista Guilherme Pastore vai se apresentar oportunamente, mas acredito que seja um exemplo daquilo que esse blog preza e estimula: excelência e novas idéias. Como estamos atravessando um momento de reciclagem em nossas fileiras, renovamos nosso convite pra que interessados colaborem enviando artigos, posts, curiosidades e etc. A janela de transferências da modelândia felizmente ainda não fechou e provavelmente teremos mais adições, mas não queremos que vocês esperem por nós: se tem uma idéia legal, um insight que gostaria de compartilhar, este espaço é de vocês.

Vamos correndo que o TEMAS já tá em cima! ;P

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Raízes da Vendidagem - Parte II

Terminei o último post falando sobre a evolução do conceito de vendidagem até os dias de hoje, e como há duas concepções a respeito do mesmo fenômeno: uma boa vendidagem, aceita (ou ao menos tolerada) no meio social da Modelândia, e uma má vendidagem, que não tem esta mesma aceitação.


Antes de entrar em maiores detalhes nisto, no entanto, vale aqui fazer uma consideração (e também uma curta digressão pessoal) sobre um fator muito importante no desenvolvimento da vendidagem – o prêmio.


De uma certa forma, a existência do prêmio foi fundamental para o desenvolvimento da vendidagem, em formas que discutiremos adiante. No entanto, alguns modelos mais antigos (como a SiNUS, desde 2002) e principalmente desde 2005 (com a mentalidade prizeless is priceless do primeiro TEMAS), tem acumulado força um movimento em alguns modelos brasileiros de não distribuir prêmios aos delegados (ou delegações), optando por avaliá-los de alguma outra forma, tendo cada modelo seu próprio estilo de avaliação.


Como dito antes, o meio ambiente modeleiro propiciou o desenvolvimento da vendidagem, e os prêmios dados aos delegados considerados vendidos garantiu a sobrevivência deste comportamento. Mas ao contrário das expectativas, a eliminação dos prêmios em determinados modelos não acabou com a vendidagem – esperava-se que a eliminação dos prêmios acabaria com o tipo de vendidagem predatória que muitas vezes ilude os diretores e incomoda os delegados. Não foi bem isso que aconteceu.


Por conta disso, eu optei por dar um pouco menos de relevância aos prêmios em si para focar mais no desenvolvimento da vendidagem como um fenômeno de comportamento que prosperou in full force no ambiente modeleiro brasileiro. Certamente teve impacto, mas de alguns anos para cá perdeu bastante espaço em relação ao que tinha antes, e isso prova que a vendidagem consegue caminhar com as próprias pernas. Mesmo assim, o prêmio continua tendo uma influência indireta sobre a evolução da vendidagem, como voltarei a abordar em seguida.


Relembrando as variáveis da vendidagem que apresentamos no finalzinho do último post, o bom vendido é aquele que sabe utilizar os dons da retórica e da oratória, bem como o uso racional das regras e de documentos, para convencer e direcionar de maneira construtiva os debates para um rumo mais favorável à sua política externa. São basicamente as qualidades de qualquer bom delegado, com a diferença fundamental que o vendido sabe se apresentar, aparecer e ser lembrado como ninguém.


O mau vendido, por outro lado, embora faça uso dos mesmos artifícios, o faz de uma maneira destrutiva: ao invés de convencer, manipula sem rumo e abusa de dramatizações; deixa de usar as regras de forma moderada para abusá-las sem dó nem piedade; muitas vezes atropela sua própria política externa na crença, de certa forma maquiavélica, que irá atingir seus objetivos (isso quando não o faz por simples desejo de massagem no ego ou por diversão egoísta).


Estes são apenas estereótipos; como ninguém é perfeito nem uniformemente comportado, mesmo bons delegados às vezes escorregam nos excessos, e delegados abusados mostram lampejos de virtude. E é aí que mora o perigo.


Distinguir entre o bom e o mau vendido é uma atividade que requer alguma experiência prévia em modelos. Quem souber o funcionamento esperado de um comitê saberá entender quando que um delegado está contribuindo para o debate e compreendendo as regras e quando não está; desta forma, o diretor, que é a principal entidade responsável pela tarefa de identificar os bons e os maus, saberá como contornar eventuais delegados que prejudicam o debate (através de mecanismos próprios da simulação, como cartas de governo e intervenções) e premiar ou incentivar os delegados que contribuem algo para o debate.


Só que nem sempre nós podemos contar que todos os diretores em um modelo saberão como distinguir os bons dos maus, ou deixando de reconhecer bons delegados que atuam mais discretamente para dar atenção a delegados que mais se preocupam em aparecer do que contribuir com o debate. Isto é em parte decorrente da nossa própria percepção sobre o desenvolvimento de MUNs como duelos de oratória e retórica, e não como negociações diplomáticas propriamente ditas.


Apesar da minha preferência pessoal por avaliações individuais em detrimento de prêmios, eu tenho que admitir que os prêmios levam uma vantagem por serem um instrumento que tem a capacidade de tornar públicos os bons exemplos escolhidos por um bom diretor, consciente do que faz um bom delegado e, conseqüentemente, o bom vendido. O problema é que é uma faca de dois gumes: da mesma forma, os prêmios também podem valorizar erroneamente os maus vendidos, que participam de modelos exclusivamente com o intuito de ganhar um prêmio (deixando de lado a experiência acadêmica que é a própria simulação) e este tipo de conduta acaba por se espalhar, gerando mais exemplos de má vendidagem (que se espalha mais facilmente do que a boa vendidagem).


Para agravar a situação, talvez em razão da distância temporal entre o surgimento do termo "vendido" e o "boom" modeleiro no Brasil, muitos delegados (principalmente de ensino médio) se chamam de vendidos entre si, se orgulham de ser vendidos, colocam como objetivos em um modelo se comportar como um vendido. Needless to say, quando não existe uma concepção correta sobre o que é o vendido, sua origem, sua conotação e suas variações, os resultados podem ser desastrosos, com muitos delegados se desestimulando ou por não poderem se comportar como imaginam ser a forma "correta", ou por se sentirem intimidados por esses delegados que agem como maus vendidos sem saberem que o são.


O comportamento de um delegado em um modelo é algo completamente imprevisível; não sou psicólogo para saber dizer de que forma um delegado de primeira viagem, ou com vinte modelos nas costas, se comportará quando se deparar com determinada situação. A vendidagem tem tantas variações quanto há delegados dispostos em se empenhar em participar de modelos seriamente. É simplesmente impossível "controlar" os delegados para impedir algum comportamento deletério ao debate, não importa quantos treinamentos e clubes de simulação organizemos.


Tudo bem, se formos diplomatas nós lidaremos com colegas de trabalho com comportamentos menos "éticos", por assim dizer, ou com ameaças, ou com outras situações que fugiriam das regras comumente aceitas para discussões civilizadas. Mas há uma grande diferença neste tipo de situação para os exemplos de má vendidagem que vemos em modelos: no mundo real, diplomatas não têm (muita) margem para a criatividade ou para o exibicionismo, salvo em ocasiões raras, nem eles ganham "prêmios" por suas atuações (não no sentido modeleiro). Em modelos, e especialmente na Modelândia brasileira, um delegado que resolve dar asas à imaginação pode ser desastroso para um comitê, e ainda ser premiado por isso (ou pelo menos não ter como ser impedido) se cair sob a tutela de diretores inexperientes.


Como podemos ver, a situação é bem complexa. Os bons vendidos estão em extinção; maus vendidos são erroneamente premiados, e seu comportamento se multiplica por delegados mais novos e com pouca experiência; diretores que cresceram com esse ambiente de ambiguidade não conseguem distinguir o joio do trigo da vendidagem; bons delegados em potencial desistem de continuar na Modelândia por não terem espaço em um evento que deixou de ser uma simulação de negociações diplomáticas para ser um concurso de caras, poses e discursos.


Eu não saberia dizer se há uma solução rápida e/ou efetiva para esta situação. Se houver, gostaria de ouvi-las nos comentários, e no próximo post da série comentaremos sobre maiores desenvolvimentos.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Raízes da Vendidagem - Parte I

(Ante scriptum: resolvi dividir o tópico vendidagem em posts separados. Este tratará da evolução do conceito de vendido desde sua concepção até a visão que temos hoje da matéria. O próximo post será mais analítico, falando dos inner workings da máquina da vendidagem, seus efeitos positivos e negativos na Modelândia e quais são as perspectivas futuras a respeito. Um possível próximo post abordará eventuais questões levantadas pelos leitores nos comentários.)


Eu não lembro quando me foi feita a primeira menção ao termo "vendido" em um modelo. Sei que foi cunhado em 2003, no AMUN daquele ano (meu primeiro modelo), em "homenagem" a um agora aposentado modeleiro da Vetusta Casa da PUC-Minas.


As circunstâncias da criação do termo "vendido" foram um tanto curiosas – o termo surgiu durante uma festa, em uma discussão acalorada a respeito da dinâmica de um comitê então simulado, e a partir de um círculo de amigos popularizou-se durante o modelo. (O Napoleão presenciou a cena, e poderá contar com maiores detalhes posteriormente; nisso eu infelizmente tenho poucos detalhes, e qualquer contribuição será bem vinda.)


Só que depois dessa gênese, o "vendido" acabou tomando figura própria, e tornou-se a gíria mais popular e característica da Modelândia brasileira sem que muitos soubessem exatamente o porquê disso. Salvo por aquele momento inicial em que foi criado, quando o significado do termo era entendido por um pequeno grupo de pessoas, o tema "o que é ser um vendido" tem sido objeto de longos papos em bares por modeleiros empolgados.


O "vendido" não é uma criação modeleira - longe disso. O termo é até dicionarizado: um dos usos figurativos do verbo "vender" (ou "se vender") é "praticar atos indignos por interesse" (cliquem aqui, pesquisem por "vender" e vejam). Nas circunstâncias modeleiras, foi utilizado primeiro em um sentido pejorativo, próximo desse sentido original, com um delegado reclamando das práticas (em tom de brincadeira, mas ainda assim com uma conotação pejorativa) de um outro colega de comitê.


Uma possível definição de vendidagem adaptada especificamente ao mundo modeleiro foi apresentada e comentada em 2006, em um artigo (que em breve será disponibilizado na Biblioteca daqui) escrito pelo então Deputy-Secretary-General for Academic Affairs do AMUN 2006, hoje diplomata, João Vargas:


"To be “sold out” [vendido] is to sacrifice one’s foreign policy in the interests of one’s ego, to make overly dramatic speeches, to make a point of demonstrating one’s knowledge of the most obscure rules of procedure. On the one hand, the endless calls of “Vendido!” are a manifestation of the easy camaraderie and informality that are an essential part of Brazilian MUNs; on the darker side, they are a sign that too often, what should be arenas of negotiation have become spotlights for posturing."


(Nota: uma tradução mais correta para "vendido" seria "sellout", uma gíria existente e usada em inglês; de acordo com o Oxford Dictionary, significa "a betrayal of one's principles for reasons of expedience", o que parece bem consistente com a idéia atual de um vendido. De qualquer forma, o ponto levantado ainda é válido.)


Esta definição foi apresentada, no artigo, em um momento em que o autor discutia sobre as diferenças de procedimento e dinâmica entre modelos norte-americanos (dos quais os modelos brasileiros são, ao menos em sua origem, "filhotes") e brasileiros. A vendidagem seria evidência e, talvez, um efeito colateral de um estilo de modelar, ao que me consta, tipicamente brasileiro: uma forte ênfase em debate formal, reconhecer a eficiência de um delegado como equivalente à sua disposição em falar em público (por mais que o conteúdo dos discursos deixe a desejar), e uma necessidade de mostrar conhecimento de uma forma ou de outra ainda que isso faça com que o delegado pareça arrogante.


Percebam que há uma sutil diferença entre a definição dicionarizada de um vendido (que por si só é perfeitamente aplicável ao mundo modeleiro e que, por uma questão lógica, deve ter sido a definição original) e a apresentada por João Vargas em seu artigo. A rápida evolução e a popularização dos MUNs acabou criando uma imagem própria do que é ser um vendido, uma definição à nossa maneira e adaptada à realidade modeleira brasileira, apresentada por Vargas no artigo.


No entanto, esta definição (que é apenas uma possível, como pudemos ver nos comentários ao post que fiz antes deste) tem uma conotação ambígua. Em um ambiente modeleiro que dá maior ênfase à "presença de palco", por assim dizer, fazer discursos dramáticos e mostrar conhecimento das (às vezes confusas) regras de procedimento, por exemplo, chamam a atenção positivamente de uma parte dos modeleiros (especialmente os novos), e não negativamente (como alguns dos modeleiros mais calejados, adeptos da discrição, achariam).


O ambiente no qual a maioria de nós se familiarizou com MUNs propiciou a "mutação" da idéia exclusivamente negativa de um vendido para uma mais positiva (ou construtiva). Como foi levantado nos comentários anteriores, pelo menos até alguns anos atrás, alguns "vendidos" eram considerados benéficos ao debate, por serem pessoas realmente dispostas a incorporarem o papel de representar o seu país, às vezes até de forma exagerada, o que ajudava o fluxo do debate e mesmo a orientação dos delegados.


Temos, então, duas correntes diferentes, simultâneas e, de certa forma, contraditórias sobre o mesmo conceito - gerando assim o que chamamos hoje uma vendidagem positiva ("boa" vendidagem) e uma vendidagem negativa ("má" vendidagem). O que é cada tipo de vendidagem abordarei no próximo post.


Ambos os tipos, porém, contêm uma raiz única, implícita no conceito original de vendidagem e explícita na definição de João Vargas – a valorização, intencional ou não, construtiva ou não, de determinadas qualidades puramente individuais (como oratória e dramatização) que fazem com que o foco de discussão de um comitê seja desviado em maior ou menor grau do assunto principal em função dos trabalhos ou manipulações de um único delegado (ou delegados), de modo que este(s) possa(m) obter resultados às vezes mais satisfatórios para seu(s) ego(s) e/ou para sua(s) política(s) externa(s). Isto, acredito eu, é a essência da vendidagem. Notem que há uma série de variáveis nesta essência, e são elas que determinam o que é o bom ou o mau vendido.


More to come very soon.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Venda sua alma

Estou aqui preparando um long overdue texto sobre o conceito acadêmico e fenômeno cultural que é a vendidagem nos MUNs brasileiros.

Mas antes, eu quero ouvir um pouco dos leitores qual é a perspectiva deles sobre vendidagem. Sejam sinceros: digam o que acham que é, se ajuda ou atrapalha, se tem cura, ou mesmo se não têm a menor idéia do que seja. Quero juntar estas opiniões ao texto que publicaremos em alguns dias.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Você Sabia?

Nessa baixa temporada de modelos é meio complicado pra nós arranjar material novo e interessante para manter nossos amigos modeleiros entretidos. Então vou aproveitar pra compartilhar com vocês um pouco das minhas pesquisas monográficas, direto dos registros oficiais da Conferência de São Francisco (CSF), com as propostas e emendas enviadas pelas mais diversas delegações após a Conferência preparatória de Dumbarton Oaks para a criação da ONU! E realmente temos coisas bizarras e curiosidades inúteis nestes documentos. Afinal...

VOCÊ SABIA?

Tema de hoje: A Composição do Conselho de Segurança!

- Que Honduras e Irã já pediam desde a CSF que fossem 15 os membros no Conselho de Segurança?

- Se bem que Honduras também queria que desses, 3 países fossem latino-americanos...

- Que o Equador, por sua vez, sugeriu 13 membros. Zagallo, anyone?

- Que o Canadá pediu que a referência ao status da França como potência que futuramente deveria ser membro permanente deveria ser *deletada*. Isso mesmo, do verbo deletar. Em 1945? Também não fazia idéia.

- Que o Brasil, pra variar, já queria ser membro permanente?

- Que a França pediu pra que a metade dos membros não-permanentes eleitos fosse escolhida entre os países que "contribuem ativamente para a segurança". Duas perguntas: O que exatamente "contribuir ativamente" quer dizer? E a outra metade, vai no palitinho?

- E o mais chocante: o México já queria 6 membros temporários e 6 semi-permanentes, em adição aos P-Five! Senhoras e senhores, são mais de 60 anos da mesma política externa! Haja firmeza!

domingo, 13 de janeiro de 2008

O Grande Mapa da Modelândia

Os modelos da ONU brasileiros seguem o Princípio das Vantagens Comparativas de David Ricardo. Cada um se especializou em algo: comitês históricos, temas jurídicos, organizações regionais e por aí vai. Já discutimos isso muitas vezes neste blog.

O que menos gente já percebeu é que existem identidades regionais entre os MUNs. Cada Estado brasileiro possui um jeito diferente de simular a ONU, uma filosofia própria, prioridades específicas. A modelagem carioca não tem nada a ver com a modelagem gaúcha, por exemplo.

Sabendo disso, resolvi desenhar um revolucionário Mapa-Múndi da Modelândia, traçando paralelos entre as características modelagem de cada Estado brasileiro e o papel de alguns países no sistema internacional. Cliquem no mapa abaixo e vejam as descrições de cada Estado. Peço perdão pelas generalizações e suplico bom-humor aos leitores!

Mapa da Modelândia
Franco-Brasília

O mais antigo Estado modeleiro na verdade não é um Estado. Trata-se do Distrito Federal. As regras de procedimento, o formato dos comitês, o espírito da modelagem brasileira, tudo isso surgiu em Brasília. No contexto da modelagem brasileira, a posição de Brasília é equivalente à da França - o país que inventou a diplomacia moderna. Assim como Paris já não é o que era antigamente, a influência relativa dos modeleiros do DF diminuiu nos últimos anos, graças à proliferação dos modelos e a jeitos inovadores de simular. Ainda assim, a capital federal continua a ser o centro da Modelândia, o principal padrão de referência dos novos MUNs que surgem a cada ano. O AMUN ainda é o modelo mais cosmopolita do Brasil.

Gaúchos da Helvécia

O Rio Grande do Sul é hoje o principal pólo da modelagem tradicional no Brasil. Nos últimos cinco anos, os gaúchos consolidaram uma reputação de comitês sólidos, confiáveis e convencionais. No Sul se simula apenas o sistema ONU, aquele feijão-com-arroz que alimenta e fortalece. Nada de aventuras arriscadas. A especialidade local é o direito internacional. Na realidade, o RS é um centro modeleiro relativamente pequeno, com apenas um modelo universitário consolidado, o UFRGSMUN, e outro secundarista a caminho, o UM. Pelo legalismo, pelo conservadorismo, pela seriedade e pela influência desproporcionalmente grande em relação ao seu tamanho, o Rio Grande do Sul é claramente a Suíça da modelagem nacional.

Estados Unidos Paulistas

Graças ao seu peso econômico e demográfico, São Paulo é, para o bem ou para o mal, o equivalente dos Estados Unidos entre os MUNs nacionais. Assim como os EUA concentram uns 20% de toda a economia mundial, pelo menos 1/4 de todos os modelos brasileiros acontecem em SP - não apenas na capital, mas também em cidades como Franca, Santos e São José dos Campos. A terra de Obama está rachada entre democratas e republicanos de todas as tendências; do mesmo jeito, em São Paulo convivem modelos tradicionais e outros mais excêntricos, que de vez em quando brigam entre si mas depois se reconciliam. Assim como a atitude americana em relação ao resto do mundo oscila sempre, SP às vezes hesita entre a liderança e o isolacionismo na Modelândia. Porém, como Brasília, tem uma posição privilegiada no sistema.

Indocarióquia

Já o Rio de Janeiro está para a modelagem brasileira como a Índia está para as relações internacionais. É um centro modeleiro que demorou um pouco para se organizar, mas que nos últimos anos demonstrou uma vitalidade impressionante, crescendo muito rápido e se estabelecendo entre os principais pólos de MUNs de nosso Brasil Varonil. Note que eu comparo o Rio à Índia e não à China: ao contrário do boom chinês, que é controlado por um governo autoritário, o boom indiano acontece em clima de saudável e alegre bagunça. É parecido no RJ, onde a coordenação entre os modelos pode ser um enorme desafio, mas onde não falta criatividade e inovação na hora de definir comitês e temas. À imagem dos sociáveis indianos (mas não dos disciplinados chineses), os modeleiros cariocas são os mais festeiros do Brasil.

Minas Russas

Podemos comparar Minas Gerais à Rússia. Assim como os diplomatas russos, capazes de entortar o direito internacional e ganhar qualquer discussão, os modeleiros de Minas são famosos pelo alto desempenho. A Escola Mineira de Vendidagem é a mais reputada do Brasil, e provavelmente detém o recorde de prêmios individuais e coletivos. A Rússia não tem condições de superar a economia americana ou o prestígio europeu, mas possui triunfos suficientes para ser um centro alternativo de poder. Do mesmo jeito, Minas não tem como organizar mais modelos do que SP ou RJ, mas conseguiu se afirmar como um pólo crucial da modelagem nacional e participa de todas as discussões sobre a integração dos MUNs. Além disso, o mineiro Vetusto Douto foi amigo e conselheiro de Vladimir Lenin, como todo mundo sabe.

África Grande do Sul-Norte

O Rio Grande do Norte, pioneiro e por muito tempo solitário entre os modelos da ONU no Nordeste, ocupa a posição da África do Sul no nosso tabuleiro. Assim como a terra de Mandela em relação às grandes potências, os potiguares estão geograficamente isolados, e enfrentam problemas estruturais para o crescimento, como a relativa escassez de universidades locais e as dificuldades de transporte. O RN é um Estado bem menor e menos rico do que os grandalhões do Sudeste. Ainda assim, na linha da África do Sul pós-apartheid, os modeleiros potiguares encontraram soluções criativas para seus problemas. A SOI soube conciliar comitês tradicionais com experiências novas, ganhou a fama de modelo mais hospitaleiro e alegre do Brasil e hoje possui um lugar de direito na Távola Redonda dos MUNs nacionais.

Tai-Bahia, Piauegito e Cearenses do Chapolim

A recompensa pelo esforço potiguar veio nos últimos três anos, quando surgiram novos centros modeleiros nordestinos. Eles são descendentes da modelagem do RN, mas também possuem relações com as simulações do Centro-Sul. Estas jovens escolas de modeleiros estão na Bahia, no Ceará e no Piauí, que vou comparar a algumas economias emergentes deste mundão. Na falta de parâmetro melhor, digamos que a Bahia é a Tailândia por causa da comida picante e da beleza das praias; que o Ceará é o México por causa do sotaque engraçado e da beleza das praias; e que o Piauí é o Egito por causa do calor absurdo e (guess!) da beleza das praias.

Ex-Iugoslavos do Pantanal, Grão-Ducado de Paranaburgo, Manezinhos da Ilha dos Lêmures e República Cazacapixaba

Ainda não acabou. Existem relatos de simulações das Nações Unidas em outros Estados brasileiros, especificamente no Espírito Santo, no Paraná, no Mato Grosso do Sul e em Santa Catarina. São MUNs bastante isolados, que raramente se comunicam com o resto da Modelândia e geralmente não possuem sites próprios. Vamos comparar esses modelos misteriosos a países igualmente enigmáticos. Digamos que em termos modeleiros o Espírito Santo é o Cazaquistão, pois é um satélite natural de Minas Gerais/Rússia; o Paraná é Luxemburgo, um lugar tranqüilo demais para ser interessante; Santa Catarina é Madagascar, um paraíso para modeleiros surfistas; e o Mato Grosso do Sul é a Antiga República Iugoslava da Macedônia, pois não tem litoral e possui um nome irritantemente comprido.