sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Nada de novo no front diplomático


A festa da democracia não se limita aos municípios brasileiros e à Casa Branca. A ONU também vota. Votou hoje. O resultado? A Assembléia Geral perdeu mais uma excelente chance de tornar o Conselho de Segurança, se não mais eficaz ou democrático, pelo menos mais divertido.

Os cinco novos membros do CS, eleitos para ajudar a tomar conta da paz mundial entre 2009 e 2010, são Áustria, Turquia, Japão, México e Uganda.

Não há nenhum novato entre os membros rotativos recém-eleitos. O Japão vai ser conduzido para o Conselho pela décima vez, batendo um recorde que até agora era dividido com o Brasil. Turcos e mexicanos foram eleitos pela quarta vez. Austríacos e ugandenses entram no clube pela terceira vez.

Os cinco eleitos substituirão Itália, Bélgica, Indonésia, Panamá e África do Sul. Ou seja, o Conselho vai ficar ainda mais tranqüilo do que já era. Os sul-africanos são hoje os terceiro-mundistas mais barulhentos do CS, e não perdem uma chance de proteger Mianmar ou o Zimbábue dos reproches ocidentais. Já a Itália do Berlusconi, como se sabe, gosta de um bom factóide.

"Nosso zelador vai conduzir o senhor ao toalete!"


Mas o realmente interessante é ver a lista dos Estados que perderam as eleições para o próximo biênio do CS. O Irã se candidatou pelo grupo dos países asiáticos, mas obteve apenas 32 votos, ante os 158 do Japão. Já a Islândia – que acaba de ser salva da bancarrota por um empréstimo bilionário de petrodólares russos – fez uma campanha longa, esforçada e inútil; recebeu 87 votos, contra os 151 da Turquia e os 133 da Áustria (havia duas vagas européias em disputa).

Tragicamente, entre os Estados latino-americanos o Brasil recebeu apenas UM sufrágio perante os 185 votos do México! Derrota fragorosa? Mais ou menos. O Brasil não era candidato.

O bottomline é que o Conselho de Segurança poderia ter entre seus membros um país proliferador e uma ilhota sem exército, mas isso não vai acontecer em 2009. Seria bom para o anedotário das relações internacionais, mas talvez atravancasse um pouco mais a pauta da segurança global.

PS: Se o leitor pensa que a Islândia não passa de um paiseco gelado, saiba que Reykjavík articulou uma espécie de anti-Santa Aliança entre os 24 membros da ONU que não possuem forças armadas permanentes. Quem conseguiria harmonizar os interesses divergentes de potências rivais como São Marino, Dominica e Micronésia? A Islândia conseguiu.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

IOSC lança "Projeto Memória"

Conforme divulgado pelo Diretor-Presidente Roberto Gama:

IOSC lança Projeto Memória, vinculado ao aniversário de 10 anos do Clube, a ser comemorado em 2009

O International Organizations Simulation Club convida seus (ex-)membros e (ex-)estudantes da PUC Minas que participaram de Modelos das Nações Unidas (MUNs - Models United Nations), bem como estudantes (em geral) que participaram de IOSCMUN, a prover informações de respectiva experiência.

Mais detalhes sobre o projeto e a chamada podem ser encontrados aqui.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Pela Profissionalização das Crises

  “Eu vou perguntar só uma vez... CADÊ A BABÁ?”

Tenho a leve impressão que uma lynching mob se dirigirá contra mim após esse post, mas não custa tentar...

Não sei se mais alguém tem percebido isso, mas, nos modelos brasileiros, eu vejo uma “banalização” das crises. Anteriormente, crises eram a exceção, agora são a norma. Em contraste com a época quando comecei a freqüentar modelos (em 2005-2006), quando, normalmente, só comitês de segurança tinham crises, hoje até mesmo comitês ambientais as planejam. Por quê? Eis minha humilde hipótese:

“Antigamente”, a crise tinha duas finalidades. Uma delas era mostrar que aquela simulação era uma coisa bem próxima da realidade. Ora, é claro que se o Conselho de Segurança estiver no meio de uma sessão sobre a renovação do mandato da UNIFIL e alguém abrir a porta de supetão e gritar: “A Geórgia tá metendo o pau nos ossetas!”, eles obviamente vão parar aquela sessão para discutir a questão na Geórgia. Talvez os mais experientes no mundo modelístico possam me desdizer, mas, no meu ver, as crises surgiram para dar aos delegados a sensação de instabilidade inerente a situações extremas ou tensas.

A segunda finalidade das crises era (e ainda é, se forem bem planejadas) ajudar os diretores a separar o joio do trigo. Na crise, você percebe quem realmente incorpora a postura do país (nacionalismo transferido na veia) e quem só sabe a posição do país em relação a um tema. Não estou pedindo que os delegados saibam da política externa inteira do país, o que seria absurdo, mas sim a postura, o que é algo mais difuso. Por exemplo: se estiver sendo discutida a influência das moscas da Patagônia na segurança dos campos de refugiados palestinos e houver uma crise envolvendo a Coréia do Norte, o delegado americano tem que ter o bom senso de tentar esculachar o Kim Jong-Il. Se a França for a linha dura do comitê e os EUA forem da turma do “deixa disso”, existe algo muito errado.

Hoje em dia, principalmente nos casos de uma mesa diretora inexperiente, a crise deixou de ser uma ferramenta de avaliação para ficar apenas como algo que leva o comitê mais próximo da realidade – ou mais longe, dependendo da qualidade da crise – ou até mesmo como “algo legal de se fazer”. Por incrível que pareça, existem pessoas que acham legal ficarem trancadas em uma sala para almoçar – coisa que, sinceramente, não entendo.

De similar maneira, a qualidade das crises também caiu. Claro que antes também existiam casos de crises loucas, como o paradigmático caso da babá egípcia. Mas a insanidade é mais freqüente hoje, muitas vezes por conta de crises mal preparadas. Por exemplo, se for feita uma crise envolvendo um porta-aviões americano, o mínimo que se pode fazer é acessar a página da Wikipédia do navio e verificar que a marinha americana utiliza o prefixo USS, e não HMS, como vi em uma crise por aí.

O problema da qualidade das crises me leva a outra idéia que tenho ventilado com alguns modeleiros: a figura do diretor de crise, que tem se popularizado, principalmente nos últimos anos.

Durante o modelo, é normal algum comitê “precisar de uma crise” por qualquer motivo e não conseguir planejá-la, por quaisquer motivos. Entra em cena aquela figura que existe em qualquer modelo: a do “cara que faz crises”. Essa pessoa normalmente é diretora de algum outro comitê, e acaba tendo que administrar, além das suas próprias crises, as de dois ou três outros comitês. Desnecessário afirmar que isso é prejudicial para o modelo em si, já que o “cara das crises” tem seu próprio comitê para conduzir, e fica com a atenção dividida demais. Além disso, em um espaço curtíssimo de tempo, ele tem que se informar de como o comitê está e quem ele pode influenciar lá dentro, além de fazer uma pesquisa básica sobre o tema, caso seja algo mais obscuro (e.g. influência das moscas da Patagônia na segurança dos campos de refugiados palestinos).

Caso os modelos tivessem três ou quatro diretores de crise “estatutários”, ou seja, selecionados através de edital ou application, alguns problemas poderiam ser solucionados:

1.      1. É possível peneirar as pessoas responsáveis pelas crises através de um processo mais objetivo (no caso de uma application), aumentando a qualidade das crises.

2.      2. A divisão de tarefas entre os diretores permite que cada um dedique mais do seu tempo e atenção a um número menor de comitês, resultando em crises mais detalhadas, bem pensadas e planejadas.

a.      Um pouco de brainstorming coletivo nunca prejudicou ninguém. Os diretores podem colaborar entre si para enriquecer uma crise. Quatro cabeças com certeza pensam melhor que uma.

3.     3. A imagem do modelo em si ganha, já que as crises em diferentes comitês terão um nível parecido, eliminando o argumento “meu diretor não sabe fazer crise”.

Já existe pelo menos um caso de sucesso seguindo uma versão reduzida desse modelo que apresentei. Durante o V ONU Jr, os delegados da Crise de Berlim, que se dividia em uma épica batalha entre OTAN e Pacto de Varsóvia, tomavam decisões que afetavam o outro comitê. Entretanto, a ligação não era direta. Existia uma “war room” para a coordenação de crises, a qual foi batizada de GRUCON – Grupo de Controle. O importante é que as pessoas do GRUCON tinham uma visão panorâmica (ou bird’s eye, a que você preferir) de ambos os comitês. Era lá onde as cartas para os governos eram respondidas, as ordens militares, executadas e as crises, desenvolvidas. Sempre consultando os diretores que estavam acompanhando o debate, claro.

Isso me lembra de fazer uma observação: não estou defendendo que um pequeno grupo tome as rédeas do rumo dos debates em todos os comitês de um modelo. Pelo contrário. A integração e o diálogo entre os diretores de crise e os diretores de comitê é fundamental e imprescindível ao sucesso do comitê e, por conseguinte, do modelo.

Estariam as crises fadadas a virarem meros acessórios de comitê? Diretores de crise e war rooms vão “pegar” no mundo modelístico? Aguarde os próximos capítulos.

Philip Hime é aluno do 4º período de Direito na PUC-Rio e diretor da Organização dos Estados Americanos do VI ONU Jr.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sobre simulações como ferramenta educacional

Um argumento de autoridade a favor da prática simulada como ferramenta pedagógica:

A experimentação e o método científico pode, ser ensinados em muitas outras disciplinas além da ciência. Daniel Kunitz é um amigo dos meus tempos de universidade. Passou a vida fazendo um trabalho inovador como professor de ciências sociais nos dois últimos anos do curso secundário. Os alunos querem compreender a Constituição dos Estados Unidos? Podemos lhes dar a tarefa de ler a Constituição, artigopor artigo, e depois discutir em aula - mas, lamentavelmente, isso fará a maioria dos estudantes cair no sono. Ou podemos tentar o método Kunitz: proibimos os alunos de ler a Constituição. Em vez de leitura, determinamos que participem de uma assembléia constituinte, dois para cada estado. Damos informações detalhadas a cada um dos treze grupos sobre os interesses particulares do seu estado e região. A delegação da Carolina do Sul, por exemplo, seria informada da primazia do algodão, da necessidade e da moralidade do tráfico de escravos, do perigo representado pelo Norte industrial, e assim por diante. As treze delegações se reúnem e, com um pouco de ajuda dos professores, mas principalmente por sua própria conta, redigem uma constituição em algumas semanas. Só então lêem a Constituição real. Os estudantes reservaram os poderes de declarar guerra ao presidente. Os delegados de 1787 atribuíram esses poderes ao Congresso. Por quê? Os estudantes libertaram os escravos. A constituinte original não o fez. Por quê? Isso requer mais preparação da parte dos professores e mais trabalho da parte dos alunos, mas a experiência é inesquecível. É difícil não pensar que as nações da Terra estariam em melhor forma se todo cidadão passasse por algo semelhante.
- Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios


O comentário em si já dá margem a várias análises modeleiras, não? Também pode ser útil naquele projeto que precisa ser apresentado pra coordenação de curso, pra pedir ajuda de custo pra viajar, ou até mesmo convencer seus pais que você não está perdendo tempo, está é salvando o mundo.

Mais outro post sobre Carl Sagan virá em breve! ;)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Quadro de medalhas: quem é a melhor delegação?

"Aí ele propôs uma emenda desse tamanho!"

Com os Jogos Olímpicos de Pequim acabando, a maioria deve ter se deslumbrado com o crescimento da China e a evolução de seu desempenho desde os últimos jogos. Enquanto nós brasileiros ficamos sonhando em ter um Phelps, a China conseguiu ser a terceira nação a superar as 50 medalhas de ouro, fato somente alcançado anteriormente pelos Estados Unidos e União Soviética/Rússia. E os seguidores de Mao não só entraram no clube como pegaram a mesa principal: A China fechou os jogos na primeiríssima posição, desbancando os norte-americanos e os russos. Ao menos é isso que eles acham. Nós também. Os americanos não. E o COI diz que não tem nada a ver com isso. Enquanto isso, o Comitê Olímpico Brasileiro esclarece: essa foi a melhor campanha da história olímpica do Brasil. "Como assim?", deve pensar o amigo modeleiro. E o que isso tem a ver com a Modelândia?

É tudo uma questão de contorcer os números e colocar em evidência o que é mais importante, o grupo ou o indivíduo.

O prêmio de Melhor Delegação existe na maioria dos modelos (com exceção do TEMAS ou outros modelos nos quais o conceito de "delegação" não se aplique), e busca, em tese, premiar a melhor delegação daquela conferência. O quê exatamente torna uma delegação a Melhor, é o que trataremos neste post. Na award policy do AMUN encontramos que:
"A 'Best Delegation' award will also be given during the Closing Ceremony. This choice will take into account several factors, including: cohesiveness of the delegations, delegates' individual performances, fidelity to the represented country's image and foreign policy, and member delegates' participation and behavior – individually and as a group – at all times during the five days of the conference."
Por sua vez, o UFRGSMUN afirma que:
"For delegations awards, the individual performances of the delegates will be analyzed from a collective perspective, with regard to the delegation's cohesion and coherence."
A SOI não possui uma política expressa de premiação em seu site desde 2005, quando dizia, de forma extremamente genérica que:
"Adicionalmente, é conferido à delegação que mais se destacou em todos os comitês o prêmio de Melhor Delegação, em uma escolha feita por decisão colegiada de toda a organização do evento."
Essas definições já bastam para aduzirmos algumas características das premiações de melhor delegação: Analisando os conceitos da SOI e do URFRGSMUN, vemos que é uma decisão tomada de forma coletiva ou colegiada. O AMUN não se pronuncia se adota prática semelhante, tampouco esses dois modelos explicitam como seria essa decisão coletiva (por todos os membros do Staff? membros do secretariado? somente diretores administrativos?). A definição da SOI (que eu acho que fui que que escrevi, então digo logo que é culpa minha) não traz muita informação sobre quais os atributos analisados, coisa que as definições do UFRGSMUN e AMUN elaboram melhor. Os gaúchos destacam a coesão e coerência, enquanto o AMUN ainda observa o comportamento dos delegados e seu desempenho individual ao longo de todo o evento.

Prêmios de Melhor Delegação podem ser extremamente contestados, mas gostaria de concentrar a discussão além da subjetividade inerente ao prêmio, muitas vezes considerado até político demais, mas na natureza dessa premiação. O que se busca realmente premiar, quando se confere a uma delegação esse título tão prodigioso? Na minha visão existem duas alternativas: Premia-se o conjunto de melhores delegados ou o melhor conjunto de delegados. A diferença é sutil, e vai bem além da semântica.

O primeiro caso acontece quando a escolha se dá contabilizando qual das delegações possui mais delegados com desempenho individual de destaque. É o que sugere parte da definição brasiliense: a delegação composta pelo maior número de Phelps é a melhor delegação, é o time com craques, que são premiados em seus respectivos comitês. Calcula-se então pelo número de medalhas de ouro. Quem tiver mais medalhas de ouro, leva o Best Delegation/Melhor delegação. É o sistema adotado na maior parte do Brasil atualmente.

A alternativa seria a premiação dada à melhor equipe, o melhor conjunto. Ser o melhor conjunto é justamente como em esportes de equipe como futebol ou vôlei, ter a maior estabilidade e confiabilidade. O futebol, por exemplo, é farto em exemplos de equipes estreladas que se transformam em um apagão. Cada um brilha por si, mas juntos não iluminam ninguém. Muitas vezes uma equipe mais modesta, mas mais coesa e constante pode conseguir um resultado bem mais satisfatório que seus oponentes. Este é, na minha opinião, o sistema que premia quem realmente merece.

A premiação através da coletânea dos melhores delegados é uma convenção preguiçosa que insistimos em manter, mas contradiz o próprio espírito das simulações. Nós, ao buscar a excelência acadêmica, devemos premiar aqueles que a atingem na representação da sua delegação. Em uma análise coletiva, é imperativo que se analise o que cada elemento do grupo conquistou. Como todos sabemos, relações internacionais não são formadas por eventos isolados, mas por uma realidade em que fatos convergem e influenciam diversas áreas ao mesmo tempo. Uma delegação que teve 75% de sua representação brilhante mas uma parcela irreconhecível jamais deveria ser premiada, não importando que o resto tenha feito um trabalho excelente. Aquele delegado que pisou na história e tradição de sua nação comprometeu seus esforços diplomáticos, aquele Estado saiu daquela conferência com uma representação irregular. Por mais que isso possa acontecer na vida real, lá não há prêmio. E, se houvesse, creio que deveria ser concedido às nações que avançaram menos, mas avançaram sempre. Passos pra frente, nenhum passo pra trás.

Deixando minha opinião de lado por um instante, o que existe é o mesmo dilema do quadro de medalhas das Olimpíadas. Vários veículos midiáticos norte-americanos colocaram os Estados Unidos no topo do ranking por ter um número maior de medalhas no geral. O resto do mundo, basicamente, colocou a China, considerando que o ranking é medido pelo número de medalhas de ouro. Qual a grande diferença, além do resultado? O primeiro critério considera que medalhas tem um valor aproximado, independente de suas cores. O segundo afirma que a melhor delegação olímpica é aquela formada pelo maior número de delegados campeões, esportistas em destaque.

A diferença entre o exemplo olímpico e a modelândia é que no caso esportivo não se exige coerência com a delegação. A competição olímpica é de caráter eminentemente individual (salvo no óbvio caso dos esportes coletivos). Nas olimpíadas o seu desempenho não tem rigorosamente nada a ver com o de um atleta de outra modalidade, e seu único vínculo são as cores de sua bandeira e, provavelmente, o bloco de carnaval que vocês desfilam na cerimônia de abertura e encerramento. Ao meu ver, é forte o argumento pelo qual os jogos olímpicos ressaltam a importância de se competir, não de ganhar. Logo, a delegação que participou de mais pódios competiu mais e melhor do que aquela que compareceu menos, mesmo que no lugar mais alto mais vezes. Mas na modelândia, esse argumento é incisivo e, ao meu ver, definitivo: a delegação possui um vínculo de coletividade que ultrapassa o bom desempenho individual. As cores da bandeira que enfeitam broches de lapela unem todos os delegados em um trabalho de equipe que deve ser estimulado, inclusive através dos prêmios. Precisamos avançar do método de premiação matemática que diz que a melhor delegação é aquela que ganhou mais prêmios. A melhor delegação é aquela que representou melhor os interesses do seu país em TODA a conferência. Onde esteve presente, foi bem representada.

Se essa meta é difícil de ser mensurada, aí são outros quinhentos. O que importa é repensar nossos conceitos e enfrentar a realidade que, se queremos formar boas delegações, e de fato estimular as habilidades de trabalho em equipe que buscamos, é o caminho a se seguir.

Uma das primeiras histórias que ouvi, na minha infância modeleira, foi sobre como dois delegados da UFRN conseguiram, certa vez, em um AMUN agora longínquo, fazer dois unmoderated caucuses em seus comitês ao mesmo tempo para negociar simultâneamente entre os dois comitês. Então dois comitês separados viraram comitês em dupla, por um breve espaço de tempo. Certas concessões e negociações foram feitas de forma conjunta, cedendo aqui pra ganhar ali. Como poderiamos favorecer essas práticas? Precisamos inventar novos instrumentos pra favorecer o verdadeiro trabalho de equipe? Ou será que caminhamos rumo ao domínio dos Galácticos?

Já dei minha opinião. E vocês, o que acham?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Como (não) acabar com seu modelo

- This is the end. My only friend, the end...

Tendo em vista que que os encerramentos em modelos brasileiros têm sido verdadeiras epopéias - dá pra ler os Lusíadas inteiro durante um encerramento médio de modelo - resolvemos reunir algumas dicas para realmente ACABAR com seu modelo, pra não ficar nenhum delegado reclamando (nem presente). Afinal, um dos (muitos) lemas deste blog é "se for fazer, alopre!".

1 - Quem se importa com horário?
Que é isso gente, isso é Brasil. Ninguém faz nada na hora mesmo. Marque o encerramento pras 15 horas, mesmo sabendo que a metade dos comitês não vai acabar a tempo. É bom que força o povo a dar uma acelerada básica. E se atrasar um pouquinho, não tem problema nenhum, já que o Staff ainda vai estar fazendo os prêmios na hora, é bom que dá uma enrolada básica. Conscientize-se, isso é Brasil.

2 - Essas são suas 8 horas de fama, abra o seu coração!
Vamos lá, você passou meses trabalhando por esse modelo, gastando tempo, dinheiro, ignorando sua família, seu namoro, seus amigos, a Igreja, o Greenpeace, o clube de futebol, a África, a novela e tantos assuntos tão importantes! Nada mais justo que agora, tendo alcançado o cume, você possa olhar pra baixo e despejar torrentes de amargura que inundam seu coração. Fala que o auditório todo te escuta. Pode contar das pessoas que não acreditaram em você, da labuta diuturna incessantemente travada, daquele dia que vocês foram comer pizza e o pneu furou. Fique à vontade, tá todo mundo aí, assistindo, feliz da vida, só por causa do seu trabalho. Ilumine-os com a beleza do seu coração, todos te amarão ainda mais. Ah, e se sentir uma vontade incontrolável de chorar, chore. Chore muito. Todos se sensibilizarão com suas lágrimas e se juntarão a você em imenso abraço coletivo de congratulações mútuas e declarações pungentes. Não há vergonha em ser emo!

3 - A beleza das coisas está nos detalhes.
Você sabia que o papel da capa do guia de estudos tem gramatura 25? Você sabia que quase só colocou Eslováquia em vez de Eslovênia naquele comitê porquê a bandeira é mais bonita? Não sabia? Não acredito, como você vivou sem saber disso! Todo mundo sabe que delegados ADORAM saber detalhes, especialmente os administrativos. Organize uma agenda com todos os afazeres logísticos de todos os dias de simulação para, ao final, gloriosamente, declamá-los em redondilhas serenas. A galera irá ao delírio. Pessoal do acadêmico: fale sobre o intenso processo de correção dos guias! Vamos transformar o Grand Finale em um Very Best, Greatest Hits E Making Of ao mesmo tempo! Aproveite seu discurso bem para fazer os delegados se sentirem em casa, tenho certeza que será uma experiência extasiante.

4 - A retórica como uma arma de destruição em massa.
Prepare seu discurso de encerramento com meses de antecedência, só pra chegar no dia jogar tudo fora e dar vazão ao seu coração (vide tópico 2). Mas se mesmo assim você ainda lembrar de algo que originalmente iria dizer, aqui vão algumas sugestões: não esqueça de agradecer a todos os membros da organização um por um (afinal, como mais eles saberiam que você aprecia seu trabalho?) Cada discurso deve agradecer a todos os membros da (imensa) mesa, a Deus, a Xenu, ao Modeleiro Original e a todos os santos da Igreja Católica (nominalmente e em ordem cronológica, pelo dia do ano), não vamos fazer desfeita com ninguém. O discurso nunca poderá ser preso pelas amarras da contingência: se você tem algum ideal ou idéia que não seja diretamente vinculada ao modelo, não tem problema, todos vão entender. Mais uma razão pra você falar, ninguém tá nem aí pra isso mesmo, agora sim, todos vão mudar suas vidas! Aproveite o ensejo e difunda suas convicções políticas, sociais, sexuais e alimentares, só assim viveremos em uma sociedade mais aberta. Cada diretor de cada comitê deve falar, dando sua visão particular desse evento tão multi-facetado que é uma simulação das Nações Unidas. Garanto que após todos esses cuidados, ninguém vai resistir: a platéia estará aos seus pés.

5 - "O que é, o que é, vota com os Estados Unidos e só abstém se quiser?"
Todos adoram jogos, essa é uma verdade universal inquestionável. O ser humano tem uma necessidade inerente por atividades lúdicas. Assim, aproveite a hora dos prêmios pra fazer um joguinho adorável cujos participantes serão centenas de delegados empolgadíssimos! Funciona assim: Vai lá o diretor entregar o prêmio. Ele pega o certificado, faz uma cara de mistério e começa a descrever o delegado premiado: "Ele foi muito importante pro comitê, trabalhou com afinco na redação de documentos e cumpriu bem sua política externa". Aí rola aqueles 5 minutos pra galera conjecturar. Notavelmente, 10 delegados do comitê se acham presidenciáveis, a corrida é dura mas tá todo mundo no páreo. O diretor quebra a tensão se aproximando do microfone enquanto olha pro certificado pra tentar ler aquele nome completo tão estranho, diferente de "Suazilândia" pelo qual o delegado é conhecido. Silêncio sepulcral. Mais 5 minutos de consultas. Então o diretor fala o resultado, e todo mundo fica feliz! É só repetir isso com cada prêmio em cada comitê, assim teremos mais de 40 rodadas do jogo e todo mundo vai ter sua chance de ser presidenciável e conjecturado! O modelo vai quase-premiar quase todo mundo! Somos todos campeões! É quase um Amigo Secreto/Oculto, só que Amigo Premiado!

6 - Uma só voz, um só coração, uma só mensagem
Finalmente, uma coisa que você jamais deve esquecer. Enfatize a cada instante possível, nem que seja entre dois espirros da pessoa que está discursando, que foi um prazer estar com todos, que os delegados são o máximo, que as discussões foram um sucesso, que Ronaldo está magro, que a economia vai bem, que a Rússia não tem intenções imperialistas, que espera ver todos de volta e que é muito bom mudar o mundo. Lembre-se, repetindo sempre, a cada instante, você fixará essas verdades universais no subconsciente do seu eleitorado modeleiro. Todos estarão de volta ano que vem, sedentos por mais pedaços de otimismo, em um mundo tão sombrio e entediante. Faça o teste!

Delegados DURANTE o encerramento do ModeleiroMUN

Por enquanto é só, pessoal. Essas foram apenas algumas dicas de como acabar BEM com o seu modelo. Terminar em alto estilo e fazer questão de não deixar pedra sobre pedra. Se você tiver mais sugestões, pode falar! Se você adorou as sugestões e quer ainda mais, veja os comentários! Ou simplesmente repita essas dicas. Pode ter certeza que seu modelo será lembrado por um bom tempo!