terça-feira, 27 de maio de 2008

Natal: um caso modeleiro brasileiro

"enquanto isso, na sala da justiça, nossos indomáveis heróis discutem modelos de controle de constitucionalidade na constituição federal de 1988"

Para muitos jovens modeleiros que não conhecem as delegações da UFRN, o nome "Natal" está associado a um recanto tropical paradisíaco, uma época festiva do ano ou simplesmente três pontos fáceis no Campeonato Brasileiro. De qualquer forma, o nome evoca estranheza no que tange a modelos, ou simplesmente uma sensação de que é longe demais pra fazer alguma diferença - Assim como pra muita gente falar de Porto Alegre parece distante, quem sabe se alguém do UFRGSMUN escrevesse aqui as coisas ficariam mais fáceis, NÃO É, PESSOAL? [sim gauchada, tou olhando pra vocês].

Enfim, ledo engano! Natal talvez tenha um exemplo curioso para a Modelândia brasileira.

Ah, a história...

A Simulação de Organizações Internacionais - SOI, surgiu em 2001 sob inspiração do AMUN, simulando a OEA. A partir de 2003 passou a ter vários comitês, e de 2004 pra cá tem tido frequentes (não confundir com numerosas) delegações estrangeiras participando dos debates. Desde 2005 é realizada também, de forma separate-but-equal a Mini-SOI, sob inspiração do Mini-ONU, o modelo secundarista da SOI, que acontece paralelamente ao evento universitário. Como a SOI tem em média 5 comitês todo ano - e já vai na oitava edição - vários comitês diferentes já foram simulados. Como tem poucos delegados de fora, as incrições da SOI são geralmente preenchidas só com os delegados "prata da casa", não dependendo de influência externa à UFRN pra se manter. Recentemente tem voltado a ter orientação acadêmica de professores, o que tem resultado numa sensível melhora entre os diretores, conforme informações que apurei com alguns deles - não faço mais parte da SOI, frise-se.

Até aí tudo normal, existem várias cidades do Brasil que possuem modelos Universitários E Secundaristas. Mas a coisa fica mais quente.

Ano passado surgiu a FARNSim, simulação da FARN, uma das universidades privadas de Natal. Totalmente universitário, o órgão escolhido foi o PNUMA. Apesar de ter contado com apoio de membros do Staff da SOI, cresceu com equipe distinta. Este ano discute-se o padrão de crescimento, se será mais uma vez só um comitê, dois, por aí vai. A intenção é que seja realizada em semestre oposto à SOI. De qualquer forma, é uma organização independente, friso este ponto.

Ok, o número de cidades com dois modelos universitários independentes afunila ainda mais a situação. Mas pode-se argumentar que assim como a FARNSim, existem vários modelos em crescimento, então em pouco tempo várias cidades estarão como Natal, com modelos independentes mas cooperativos, sem rusgas político-modelísticas. Mas ainda tem mais.

Em 2005 foi criada a STC, Simulação de Tribunais Constitucionais. Refletindo a vocação da SOI para o Direito, com a ajuda de um ex-membro da SOI e ex-delegado do AMUN, alguns alunos resolveram fazer um spin-off da SOI, uma simulação de STF. Os participantes não representariam países, mas Ministros e Amicus Curiae da Suprema Corte. Se comitês bizarros são as flores da estação, um modelo SOMENTE com uma espécie de formato alternativo-jurídico era algo novo. Mas eles não pararam por aí. Este ano o STC contou com uma Assembléia Constituinte, além do mesmo STF que será simulado no segundo semestre.

O futuro da humanidade é a sofisticação.

O interessante na análise do caso Natalense é a diversidade contida na própria situação. Temos situações encontradas isoladamente em vários lugares do Brasil condensadas em um único ambiente em que - e nisso eu não poderia enfatizar o bastante - NINGUÉM SE MATA. É absurdo ver que em algumas cidades certos modeleiros não entendam a importância de cooperaração para se alcançar seus objetivos, casa de ferreiro espeto de pau.

Modelos surgem de formas diversas buscando alcançar objetivos diferentes. Mais uma vez, assim como aprendemos nas simulações, importar - veja que ironia - modelos de gestão e de projetos não é uma boa idéia. O modelo precisa ser um ser vivo, que pulsa e evolui para as necessidades locais. Tem cantos em que cabe um TEMAS, outros cabe um MONU. A SOI é organizada por alunos de Direito, não RI. Logo, tem comitês que pendem pro Direito, e isso é mais que normal, é desejável. Nós não podemos querer ensinar a vocês Clausewitz sob pena de incorrermos em achismos, ou simplesmente de deixarmos de aproveitar o que temos de bom em nossa formação. Resultado: Tivemos uma simulação excelente do Tribunal de Nuremberg (com direito a testemunhas, ossadas, laudo psiquiátrico e tudo), temos uma tradição de ILC (assim como a UFRGS, que fez antes e de quem aprendemos a fazer). E qual a melhor forma dessa vocação se traduzir que na propositura de um novo modelo, mais específico?

O debate do STC para mim foi incrível por vários aspectos. O principal foi por eu identificar uma mecânica de simulação adaptada naturalmente - imagine que uma dona de casa vai pegar o filho no OnuJr ou na SiEM, vê de relance como funciona um comitê, e mais tarde, na reunião do condomínio, sugere que o mediador adote uma lista de oradores. É simples faz a diferença, e é inteiramente natural. É disso que estou falando, guardadas as proporções. - por pessoas que viram na mecânica das simulações de relações internacionais uma forma de propiciar o ensino. e não é esse nosso interesse? Aprender mais através das simulações? Então porquê simulações jurídicas assim são tão raras? E a participação de alunos de Ciências Sociais? Qual o motivo de projetos como o Senado Brasileiro da Revolta da Vacina da SiEM passada não inspirar um modelo somente para atividades políticas internas? Precisamos continuar evoluindo, e pode ser que seja o caso em que a especificação seja justamente a nossa sofisticação.

E mais que investir somente na sofisticação, precisamos na verdade continuar no feijão com arroz e fazer ainda mais. Ainda há muito campo de melhora, a seara é grande e temos muito a fazer. Os modeleiros de hoje já são bem melhores que os da época do primeiro AMUN, justamente como fruto desta evolução. Mas a diversidade e amplitude dos desafios à nossa porta mostram que exemplos como o de Natal na verdade são somente o que eu já falei: a reunião de vários fatores que afetam a nós todos, combinados em um contexto muito próximo. Mais que aprender com Natal, precisamos crescer com Natal, mostrando que nossa sofisticação é muito mais que discursos populistas, que somos os trópicos paradisíacos da modelândia global, com água de coco e tudo mais.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Holanda leva o WorldMUN 2009. E o Brasil?

A cidade da Haia, que é sede do governo (mas não a capital!) da Holanda e que organiza a maior simulação da ONU da Europa, vai receber a edição 2009 do WorldMUN de Harvard, o modelo mais famoso da Terra. A notícia saiu há poucas horas. Haia havia ficado em segundo lugar na corrida pelo WorldMUN 2008, perdendo para Puebla, no México.



A nomeação da cidade neerlandesa confirma a tendência, descrita por nosso blog há um ano, de um revezamento entre sedes européias e não-européias do WorldMUN. Para quem não sabe, este é um enorme modelo itinerante, com 1400 a 1800 delegados por ano, que cada vez ocorre em um lugar diferente. Belo Horizonte organizou a edição 2002. Depois disso os brasileiros tomaram um chá de sumiço, mas de dois anos para cá voltaram a mandar boas delegações para o WorldMUN.

Como Representatives of the World repete constantemente, as simulações da ONU organizadas no Brasil estão entre as melhores do mundo em termos acadêmicos, de criatividade pedagógica e de realismo. Porém, o resto da humanidade modeleira não sabe disso. A boa notícia neste setor é que o XI AMUN - que vai ter delegados até da Sibéria! - será certamente o modelo brasileiro com mais estrangeiros nos últimos três anos. Mas não é suficiente. No geral, a Modelândia brasileira continua a ser uma ilha.

O que podemos fazer para integrar melhor os MUNs brasileiros ao resto do mundo? Uma opção ambiciosa seria tentar trazer o WorldMUN 2010 para o país, mas isso apenas será possível se muitos modeleiros experientes de uma mesma cidade grande (eg Brasília, São Paulo, Rio ou Porto Alegre) fizerem bonito no WorldMUN 2009, na Holanda, e ainda montarem um projeto administrativo muito forte, no mínimo com apoio do governo. Mas existem outras comunidades modeleiras não-européias, por exemplo na Austrália e na India, que gostariam de fazer o mesmo e portanto seriam nossas rivais.

Há alternativas. Vamos fazer um brainstorm e sacar um pouco da nossa ginga criativa tropical. Pense comigo, caro leitor: muitas faculdades brasileiras, que organizam bons MUNs, já possuem parcerias acadêmicas com universidades modeleiras do Hemisfério Norte. Que tal transferir esses laços institucionais para as simulações da ONU correspondentes? Exemplo: USP, PUC-SP, UnB, UFRGS e FGV-SP mantém intercâmbios ou mestrados conjuntos com a francesa Sciences Po, que organiza o PIMUN. Basta ligar os pontos.

Outra idéia. Surgiu recentemente uma rede européia de modelos da ONU, envolvendo simulações de Paris, Moscou, Salamanca, Haia e Milão que trocam diretores e delegados entre si, além de ajuda com a hospedagem e descontos recíprocos na taxa de inscrição. O que raios nos impede de criar uma aliança semelhante, digamos, com MUNs da Argentina, da Venezuela, do México e até de Cuba? Hein? Garanto que eles não recusariam.

Pode ser mais difícil para os modelos em português, mas em Portugal também há MUNs, tanto universitários como secundaristas. Procurem no Google.

Não estou falando de nada utópico. Essas são coisas que qualquer secretário-geral com um pouco de ambição e visão pode conseguir, desde que mande alguns e-mails para as pessoas certas. Passar pela Federação Mundial de Associações da ONU e pela sua sucursal brasileira ANUBRA (leia-se Raquel Mozzer) também ajuda.

Quando nossa Modelândia vai sair do casulo, meus amigos?

sábado, 17 de maio de 2008

Versões contraditórias

AFINAL, A CHINA APÓIA OU NÃO O BRASIL COMO MEMBRO PERMANENTE
DO CONSELHO?

Ontem a imprensa brasileira foi sacudida por uma bombástica notícia. O Jornal do Brasil e o G1, da Globo, noticiaram que na reunião do BRIC a China mostrou apoio à candidatura do Brasil a membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Do JB: "A Rússia e a China apoiaram a inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU"

Do G1: "Os governos da Rússia e da China apoiaram, pela primeira vez, a candidatura do Brasil para uma vaga no Conselho de Segurança da ONU."

Nós já podemos constatar aqui algumas estranhezas. Na notícia do JB, "Celso Amorim (...) agradeceu o apoio russo". Uai, e porque não agradeceu o apoio chinês? Outra coisa é que sabemos que a Rússia já apóia o Brasil, este apoio não é inédito como diz o G1. Ao apoio russo somam-se o francês e o britânico.

O apoio chinês explícito ao Brasil seria uma incrível vitória do Itamaraty e do Governo Lula. Seria o cala-boca definitivo no argumento de que, quando o Brasil reconheceu a China como economia de mercado na OMC, levou uma rasteira dos mandarins.



A forma de apurar a história é ver o tal comunicado conjunto final dessa que foi
a primeira reunião do tal BRIC, conceito inventado por um analista do Banco Mundial.

Ora, o comunicado tem a típica linguagem diplomática a que nós modeleiros estamos acostumados:

"
Os Ministros da Rússia e da China reiteraram que seus países atribuem importância à posição da Índia e do Brasil no sistema internacional, e compreendem e apoiam (sic) as aspirações da Índia e do Brasil para desempenharem papel de maior relevo nas Nações Unidas. "

Quer dizer... Pequim apóia sim "aspirações a papel de maior relevo". Não apóia sequer papel de maior relevo, só a aspiração! Tipo: "legal que você tem esse sonho, cara. Show de bola".



CONCLUSÃO: Não foi dado apoio explícito chinês ao Brasil como membro permanente, ao contrário do que noticiaram G1 e JB.

Mas não estamos sozinhos. O jornal indiano The Hindu também lamenta a posição chinesa, e afirma até que a China teria apoiado a Índia num encontro bilateral anterior e agora voltou atrás. E o também indiano TimesNow entende que a China apoiou a Índia no encontro de quinta-feira, que foi só RIC e não BRIC.

Com jornalistas otimistas assim, estamos muito bem-servidos.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

A little less conversation, a little more action, please

Comentário nonsense antes que inspirou o título: Elvis Presley seria um bom delegado em um gabinete.


Atualmente a menina dos olhos de boa parte dos modeleiros brasileiros, comitês em estilo gabinete são uma interessante variação das simulações diplomáticas que a maioria das conferências brasileiras oferecem. Qual é a graça? Diferentemente dos MUNs convencionais, os delegados não se restringem apenas a discussões - é esperado que eles decidam, que ajam, que tomem medidas (às vezes drásticas) para solucionar o problema que lhes é apresentado, e lidar com as conseqüências.


Pessoalmente, pude participar de quatro simulações em estilo gabinete (uma vez como diretor, nas outras como delegado). Cada uma delas teve seus atrativos e suas falhas, suas vantagens e desvantagens. Mas o principal chamativo de qualquer gabinete é aquela sensação de "pá-pum" quando se toma alguma decisão. Não basta apenas aprovar uma resolução, uma ordem ou uma recomendação – alguma coisa tem que acontecer depois disso.


Em geral, no entanto, ocorre um fenômeno curioso nos gabinetes. Talvez por conta das rotinas com as quais estamos acostumados em modelos, é muito difícil aceitar que as coisas sejam decididas sem discussões ou sem consultas a vozes dissidentes. As explicações para isso variam.


Eu não sei se há um motivo exato para explicar esse fenômeno, mas vou arriscar e puxar um fio que o Cedê certa vez mencionou sobre algo que falta aos modelos: o ensino da responsabilidade (lembrando do filósofo Ben Parker: "com grande poder vem grande responsabilidade").


Ano passado tive o privilégio de participar do TEMAS 2007 na qualidade do então President of the United States, Richard Nixon, em 1970, durante a Guerra do Vietnã. A decisão final (entre outras tantas que tomamos) era se bombardearíamos ou não o Camboja, em um dos episódios mais críticos da Guerra. Por uma série de motivos, optou-se por seguir a História real ao invés de mudá-la: fizemos queijo suíço da fronteira Camboja-Vietnã. Embora quem assinasse a ordem final em muitos casos fosse eu, e em termos estruturais eu fosse a pessoa "responsável" por um dado ato, ninguém queria assumir a responsabilidade de ter mandado bombardear um país neutro na guerra.


Salvo pelos outros gabinetes em que eu participei, em nenhum outro modelo eu me senti tão pressionado e preocupado com as conseqüências de um papel que assinei. É difícil nós vermos em um comitê da Assembléia Geral, por exemplo, qualquer traço de accountability pela postura de um delegado ou pelas decisões que o próprio comitê toma. Em simulações do UNSC, pelo menos de uns anos para cá, isso vem mudando principalmente por conta de uma nova dinâmica de funcionamento, mas como há tantos outros tipos de comitês por aí, o Conselho e os gabinetes são as exceções à regra.


Determinados organismos têm que lidar com a imprensa constantemente (seja de uma forma democrática, como a OTAN, ou autoritária, como no Conselho de Segurança Nacional de 1968). Outros têm que lidar com a possibilidade de demissão de algum de seus membros (como pude presenciar em duas ocasiões, no NSC de 1970 supracitado e o Conselho de Ministros do Império do Brasil, em 1868, do TEMAS 2006). De qualquer forma, esses aspectos remontam à questão da responsabilidade de um jeito ou de outro (cuidado com o que você fala à imprensa, ou dados sigilosos podem vazar; reverter uma demissão não é algo fácil, e indica que alguma coisa não está bem azeitada na máquina decisória; etc.).


Tudo isso forma um conjunto que faz com que gabinetes sejam, na maioria das vezes, algo mais atrativo a quem quer mais emoção no seu modelo. A inserção do accountability na simulação torna as coisas bem mais interessantes e, naturalmente, mais tensas. Essa dose extra de tensão pode espantar alguns delegados, mas geralmente atrai aqueles que já participaram de alguns modelos e querem algo diferente.


A questão do accountability não é o único chamativo dos gabinetes, claro, mas após matutar sobre o assunto, eu acredito ser o mais importante, embora o menos visível em um primeiro momento. O que acham?



domingo, 27 de abril de 2008

Vamos colocar o carro na frente dos bois!

Recentemente participei pela segunda vez do Moscow International Model United Nations, desta vez como co-diretor do Security Council.

Não vou entrar em detalhes porque o MUN foi muito parecido com a edição do ano passado, que descrevi aqui no blog modeleiro. A maior diferença é que desta vez o secretariado trouxe um time peso-pesadíssimo de palestrantes, incluindo Hans Blix, Mahmoud Abbas e Yevgeny Primakov, o que reforçou o profissionalismo do modelo mas também encheu a faculdade de agentes do FSB.

(eu quase fui estrangulado por 70 guarda-costas palestinos quando apertei a mão do Abu Mazen com força demais, mas essa é outra história)

Um presidente sem país

O que me interessa aqui é falar sobre uma grande diferença nas regras de procedimento, algo que vira do avesso toda a dinâmica de uma simulação da ONU: no MUN de Moscou, assim como em muitos outros modelos europeus, a resolução é formulada/apresentada no início dos debates e não no final. Os delegados devem apresentar suas draft resolutions ao final da segunda sessão - são oito. Eles vão escolher qual texto vai servir como base de trabalho para o UNSC, e depois disso passar todo o resto do tempo brigando pelas emendas.

Ok, no ano passado eu já citei isso tudo, mas agora quero lançar a pergunta que ficou faltando. Daria certo no Brasil? Dois aspectos determinam a resposta: o realismo e a viabilidade (ou "simulabilidade").

Primeiro, o realismo. Na ONU de verdade, e particularmente no Conselho de Segurança, as resoluções são preparadas com antecedência. Elas às vezes chegam prontinhas de Washington, Moscou ou Pequim, fato que transforma os embaixadores (inicialmente!) em meros mensageiros de seus ministros ou presidentes. Então o UNSC decide (informalmente!) qual texto vai ser adotado como base das negociações. Depois se segue a fase decisiva, quando os embaixadores brigam (secretamente!) para emendar o texto inicial. Apenas no último momento as portas são abertas para a imprensa, os delegados votam a resolução e, se for o caso, fazem pronunciamentos que serão devidamente registrados em seis línguas no site das Nações Unidas.

Como vocês certamente notaram, não é bem isso o que acontece nos modelos da ONU brasileiros. Verdade seja dita, o nosso procedimento padrão em UNSC (uns 10% do tempo total são usados na adoção da agenda, 60% nos debates formais e informais sobre o tema, 25% nas emendas e 5% na votação final - isso sem contar eventuais crises) não tem nada a ver com a vida real. Nos MUNs brazucas, o foco é simplesmente deslocado das ações concretas (i.e. a resolução e suas cláusulas e emendas) para a filosofia e a retórica (i.e. os discursos pomposos).

A "culpa" dessa falta de realismo não é nossa, e sim dos modeleiros americanos de Harvard, cujas regras foram adaptadas no Brasil a partir do AMUN 1998. Seja como for, precisamos admitir que nossas simulações não simulam lá grande coisa.

Segundo ponto, a viabilidade/simulabilidade. Isto é algo mais subjetivo. Os modeleiros brasileiros são atores por excelência, acostumados ao drama e à grandiloqüência, e talvez estranhassem essas regras russas castradoras. Se a resolução fosse apresentada no começo, o que seria das divertidas (embora inúteis) trocas de farpas diplomáticas que povoam a Modelândia?

Mind you, em Moscou os delegados ainda tinham bastante tempo para brigar sobre as emendas e fazer algum teatrinho. Ninguém sai insatisfeito. Mais importante, neste sistema o centro das atenções é a solução, não o problema. A resolução, não a análise do tópico. O comitê deixa de parecer uma sessão de terapia familiar e passa a ter a cara de um processo pragmático de resolução multilateral de conflitos. A ONU deveria ser assim, certo? Nossos modelos também.

Aqui vai mais uma proposta concreta de Representatives of the World para os jovens modeleiros do Brasil afora: experimentem colocar o carro na frente dos bois. Exijam que todos os delegados tragam resoluções (talvez substituindo os documentos de posição) prontinhas para o comitê, e vejam se funciona. Depois me contem se deu certo.

PS: o raciocínio acima vale principalmente para o UNSC, mas pode se adaptar a certos outros comitês também, onusianos ou não, mutatis mutandis.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dez motivos para manter a premiação em modelos

Adorei o post anterior e concordo com vários dos pontos. Não acho, contudo, que a questão seja "é melhor" ter ou não ter. Minha filosofia, no caso dos prêmios, é que eles trazem vantagens e desvantagens. Tê-los ou não é uma escolha.

Da mesma forma, não acho que comédia é melhor que drama nem vice-versa, tampouco que pizza é melhor que sanduíche. Acho impossível dizer qual é melhor. Acho que comédia, drama, pizza, sanduíche, têm todos seus momentos.

Então vamos a motivos para que VOCÊ, leitor, adote prêmios no SEU modelo.

Motivo 1 - Prêmios criam vendidos

Prêmios estimulam o surgimento de vendidos, e isso é ótimo. Foram vendidos os que:

a) criaram o hábito de chamar o Diretor de "Sr. Presidente", como se faz na vida real, e não de "Diretor" ou "Mesa";
b) trouxeram documentos de posição realistas e parecidos com seus equivalentes reais;
c) chamaram a atenção para o fato de que há mais coisas entre o Céu e a Terra do que produzir resolução;
d) trouxeram para o debate resoluções obscuras e impediram a criação de órgãos e fundos quando os tais já existem,

dentre outros muitos benefícios.

Falo aqui, claro, do vendido cordial brasileiro, e não vendido na definição dada em Vargas (2006).


Motivo 2 - Prêmios estimulam a competição entre indivíduos e formação de lideranças

Prêmios estimulam pessoas a falar mais. A conversar com os delemudos e trazê-los para o debate. A tomarem lideranças. A botar a coisa pra frente. A continuar discordando e insistir em impasses mesmo quando já encheu o saco. Competição positiva faz muito bem: basta comparar a Alemanha Ocidental com a Oriental, a Coréia do Sul com a do Norte.

A competição não é sempre atomista. Delegações vendidas se aliam. Os árabes; o mundo livre; os não-alinhados; os latinos do Foro de São Paulo; Londres e Washington; os OPEPs; o Mercosul, etc. E isso é realista, e bom.

Pense nos comitês que você foi e em quem ganhou prêmio. Note a freqüência com a qual aliados ganham prêmio juntos.

Motivo 3 - Prêmios estimulam "dream teams"

Prêmios estimulam pessoas empolgadas a buscarem outras pessoas empolgadas e a formar a "melhor equipe possível" da universidade. Em muitas ocasiões, isto tem o péssimo efeito colateral de interromper qualquer ciclo de formação de novos delegados e solidificar uma panelinha. Não obstante, algumas poucas delegações muito motivadas, especialmente de países-chave, podem fazer muito bem a um modelo.

A rivalidade entre grupos pode também ser saudável e positiva. O Galo joga muito melhor quando o adversário é o Cruzeiro.


Motivo 4 - Prêmios obrigam Mesas a avaliarem delegados

A melhor forma de avaliar delegados que já vi é o relatório da SiEM 2007. Também conhei boletins bons ou razoáveis em outros modelos (4º MINI-ONU, SiNUS, modelos da UNIR).

Mesmo reconhecendo isto, levo em conta dois fatores.

Primeiro, é mais coerente e socialmente aceitável que universitários avaliem alunos de Ensino Médio do que outros pares.

Segundo, alguns modelos não têm recursos humanos, experiência, ou capacidade de avaliarem muitos delegados em vários aspectos detalhados. Isto será tanto mais verdade quanto mais equiparados os delegados forem (todos péssimos ou todos ótimos), quanto mais delemudos existirem, quanto menos freqüentes forem os debates não-moderados, quanto mais delegados existirem no comitê, quanto mais gritantes as assimetrias entre os países, e quanto menor for o staff.

Por isso, prêmios podem ser a única forma plausível (ou a mais plausível) de avaliar os delegados.

(Pode-se argumentar que, ceteris paribus, quando as assimetrias entre os países são MAIS gritantes, é melhor usar os boletins do que os prêmios. Concordo.)

Parece mas não é.


Motivo 5 - Prêmios podem gerar resoluções e/ou resultados melhores

A competição entre indivíduos e grupos estimula uma redação melhor. Mais coerente com os textos de verdade, e mais coerente com as capacidades do comitê. Também cria mais pontos de veto e assegura que não será qualquer bobagem que vai ser aprovada, a menos em caso de lideranças excepcionais que forcem cláusulas goela abaixo porque têm a maioria necessária.

(Case in point: SpecPol UFRGSMUN 2007, no qual eu, como Irã, me dei muito mal, porque o eixo Washington-Paris-Sionistas levou o comitê na coleira, feliz. Pensei em mais dois casos no qual este motivo 5 não deu certo exatamente por causa do funcionamento do comitê, mas aí basicament
e é o motivo 2 em ação).

Motivo 6 - É possível criar e manter critérios coerentes de premiação
ou:
Prêmios criam "modelos" nos modelos


Prêmios criam modelos, role models, exemplos de conduta, tradições. Tudo isso parece péssimo: gera estrelismo e solidifica práticas nem sempre razoáveis.

Contudo, modelos e tradições também são bons, porque provém orientação às pessoas. Eles permitem responder à desesperada pergunta: "interessei e vou prum modelo. Mas o que vou fazer lá?"

Os modelos que nós queremos e criamos - os exemplos que resolvemos premiar - dizem muito sobre o comportamento que nós queremos ver em modelos. E embora nem sempre o premiado corresponda a isso, queremos acreditar que queremos delegados que estudam bastante antes, conversam também com delemudos, encorajam pessoas, são geralmente polidos, negociam nos não-moderados (e não só falam bonito), trabalham com afinco, conhecem o comitê (e não só o tópico e a política externa), são empolgados e aprenderam algo da cultura e da língua do país, etc.

MAIS: o principal critério de premiação deve ser sempre o resultado final do comitê. Isto é, para além de expressar em discursos a verdadeira política externa do país, o delegado teve jogo de cintura, lábia, conhecimento e etcéteras para que o resultado seja interessante ao país dele. Cláusulas que condenem o país dele o fazem perder pontos; se a resolução omite um assunto, mais ou menos pontos, dependendo do lance; etc.

A dificuldade maior aqui não a vendidagem, e sim as assimetrias. Os países mais poderosos têm mais facilidade de forçar uma resolução boa, principalmente quando alguns têm poder de veto e outros não (notem que a expressão "comitê com veto" ou "país com veto" não é suficiente, já que existem comitês onde TODOS têm veto). É aqui que os Diretores têm de aplicar o olho clínico.

Motivo 7 - Não se premia os bonzinhos

Acontece de serem premiados os bonzinhos. Acontece de serem premiados os novatos. Nem sempre é assim, e não deve ser assim. Delegados de ditaduras sanguinárias e com retórica agressiva (Irã, Venezuela, União Soviética) podem e são premiados.

Motivo 8 - Prêmios existem na vida real

Como o Ortega já disse aqui e eu sempre pensei, prêmios existem na vida real. São dados não pelos foros internacionais, mas em casa. É quando o Secretário vira Conselheiro; o Ministro, Embaixador. Um determinado diplomata vai chefiar uma missão numa capital mais importante ou assumir um posto bacana no Ministério. Ou pode ser simplesmente uma medalha ou comenda, ou o mero reconhecimento pelos seus pares e elogios entusiasmados.

Pode-se pensar no prêmio invisível. Dias depois do modelo, o delegado recebe um e-mail do seu MRE dizendo que ele foi promovido. (pensei nisso na minha OTAN 2006 mas acabei procrastinando demais). Nada de estrelismo, tudo de motivação e "feeling good inside".

Motivo 9 - Prêmios não são obrigatórios em cada comitê

Alguns modelos não obrigam todos os comitês a dar prêmio. Pode ser o caso dos prêmios existirem, e serem dados na maioria dos comitês, mas os Diretores terem a liberdade de não concedê-los. Caso imediato que me vem a mente: MINI-ONU.


Motivo 10 - Prêmios não são obrigatórios em modelos

Finalmente, prêmios são uma opção de cada modelo. A SiNUS e o TEMAS jamais os tiveram, e a SiEM os erradicou a partir da segunda edição. Preferir modelo com ou sem prêmios é como escolher comédia ou drama: é uma questão de gosto, não de um ser melhor.

Uma vantagem do modelo sem prêmio é que a universidade-sede se exime desde já de politicagens nesse sentido, já que não tem nada a oferecer "em troca". É o caso de Minas Gerais, cujo modelo universitário, o TEMAS, não tem prêmios nem sequer delegações, de forma que quando a PUC-Minas ganha o AMUN - e já o fez cinco vezes - não é por ter prêmios ou países a dar em troca.

Obrigado, Madame Presidente.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Dez motivos para extinguir a premiação em modelos


>>>UPDATE<<<
Para facilitar o debate sobre as idéias propostas pelo autor do post e os ilustres comentaristas do blog, os comentários organizados por pontos que forem colocados aqui serão agregados ao próprio post pra facilitar a leitura comparada.

Vou encarar de frente uma velha polêmica que o Pereira citou lateralmente há dois meses. Jogarei sal em certas feridas. Respirem fundo antes de ler.

Há algo de podre no Reino da Modelândia. São os prêmios. Quando eu era mais moço, idealista e via a modelagem com lentes rosas, achava que esses simpáticos diplomas e certificados eram uma coisa boa. Ledo engano. Vou sistematizar os dez principais argumentos contra essa prática nociva, inclusive os tabus.

Motivo 1 - Prêmios criam vendidos

Este é o problema mais conhecido. Logicamente, a distribuição de prêmios estimula a proliferação de delegados que os caçam - ainda que para isso eles precisem atropelar as regras, o bom-senso, a própria política externa e, às vezes, o comitê inteiro.

Pode-se argumentar, de boa fé, que a vendidagem existe independentemente da premiação, pois ocorre mesmo em modelos prizeless, como TEMAS e SiNUS. Isso é uma verdade parcial. O problema é que a vendidagem é filha da premiação. Nem mais, nem menos. Quando o termo "vendido" foi criado, em 2003, era uma crítica direta a um delegado que (na opinião de outro delegado) era um caça-prêmios. O vocábulo "vendido" não existiria em modelos se não houvesse prêmios.

Nos modelos sem prêmios também existem vendidos, mas a vendidagem nasce nos modelos com prêmios. Se a síndrome da vendidagem se alastra facilmente, é porque existem prêmios na maioria das simulações.

Pereira:

Velho dilema do ovo e da galinha. Talvez seja mais correto que os prêmios CRIARAM os vendidos, mas hoje a vendidagem tomou vida própria. Não sei mais se apenas excluir os prêmios desestimulará a proliferação da vendidagem; talvez sim, mas é um processo extremamente lento.

Ortega
:

Concordo com o que o Pereira disse sobre o motivo 1. O prêmio criou a vendidagem, mas ela cresceu, se formou em Relações Internacionais e Direito e se tornou independente. Pra matar a vendidagem é preciso muito mais que simplesmente eliminar o prêmio. É discutível, inclusive, se as premiações ainda são o maior estímulo para a vendidagem. Podem até ser nos modelos de Ensino Médio. Nos universitários, tenho minhas dúvidas.


Motivo 2 - Prêmios estimulam a desonestidade

Este é um pouco diferente do anterior. Como qualquer modeleiro sabe, uma das formas mais eficazes de obter prêmios é escrever os principais textos do comitê, sobretudo a resolução. Para alguns delegados de moral dúbia, isso justifica o plágio de documentos, o roubo de cláusulas e artigos, ou nos piores casos a sabotagem pura e simples do trabalho alheio - apagar arquivos, retirar laptops da tomada, esconder chaves USB e safadezas afins.

Infelizmente, nem todos os diretores percebem essas trapaças, e até o mais vil dos larápios tem chances consideráveis de levar um troféu pra casa, desde que seja discreto.

O que se deve fazer para evitar que seu banco seja assaltado? Basta não deixar nenhum tesouro no cofre - e avisar os bandidos disso com uma placa na porta. Na modelagem é parecido. Quando não houver mais prêmio em jogo, o crime modeleiro vai deixar de compensar.

Pereira:

True. Embora não saiba de nenhum caso em que um desonesto tenha ganhado um prêmio de fato.


Motivo 3 - Prêmios exageram as rivalidades

Uma certa competição é saudável em quase todos os setores da vida humana. Mas quando a disputa descamba para o desprezo coletivo justamente em uma atividade acadêmica e cooperativa, algo esta errado. Um modeleiro da USP que zomba outro da PUC-SP, um mineiro que tira sarro de um gaúcho, tudo isso é normal. Mas outras coisas não são normais.

Em bom português, algumas universidades têm relações muito ruins com certos modelos. Isso não é culpa exclusiva dos prêmios, mas em muitos casos eles foram o fermento das inimizades.

Os ressentimentos acumulados por premiações injustas podem suscitar boicotes (alunos da Unitrotsky se recusam a ir ao modelo da Unistalin e vice-versa) ou, pior, preconceitos que levarão anos para desaparecer. Outra conseqüência possível: em boa parte por culpa dos prêmios, faculdades inteiras abandonaram a modelagem. Paulistas talvez saibam de quem estou falando.

Com os secundaristas é ainda mais grave. Certos diretores de escolas, que precisam de prestígio para compensar alguma coisa (Freud explica), gostam de colecionar troféus, medalhas, diplomas e outros badulaques. Quando enviam seus alunos para modelos, às vezes pagando a inscrição, eles exigem uma contrapartida, paga em prêmios. Isso alimenta algumas guerras não-declaradas entre "clãs escolares" que existem em modelos Brasil afora.

Tudo isso é uma afronta ao aprendizado coletivo que as simulações oferecem. Modelos da ONU não são os Jogos Jurídicos ou as Engenharíadas! Prêmios alimentam uma luta fratricida entre as faculdades e escolas. Eles são um grande fator de desunião da Modelândia inteira. Eles semeiam a cizânia!

Pereira:

Aí não sei. Acho que isso é mais uma questão de personalidade de quem ganha o prêmio do que um problema do prêmio em si. E, também, é um caso que se aplica em muito maior escala às escolas paulistas (PUC e USP, principalmente), talvez no RJ (Estácio e PUC-RJ). Ainda é um fenômeno meio localizado.

Ortega:

O motivo 3 realmente foi um problema sério em um caso específico em SP. Mas mesmo esse caso - se for o que estou pensando - teve um ponto final no ano passado. Pra falar claramente, o Mackenzie voltou ao MONU, não? Eu não conheço outras rixas tão sérias envolvendo universidades inteiras, mas posso estar enganado...



Motivo 4 - Prêmios causam rixas pessoais

Não confundir com o item acima; aqui estou falando de indivíduos e não de grupos. Quantas amizades já foram feridas, quantas turmas rachadas, até mesmo namoros arruinados, por causa de vaidades e egos envolvidos em uma premiação de modelo? Os seres humanos são suficientemente fúteis para levar essas coisas a sério.

Esse problema tende a ser pior entre os secundaristas, que estão em uma fase mais delicada do desenvolvimento psicossocial (olha a tucanagem!), mas ocorre entre universitários também. O tempo todo.

Pereira:

Faz sentido. Eu pessoalmente nunca presenciei esse fenômeno nos comitês em que fui, mas ocorre.


Motivo 5 - Prêmios são uma camisa-de-força para os diretores

Sabem aquela hora, durante a cerimônia de encerramento, em que os diretores chorosos dizem que "foi muito difícil escolher os delegados que receberiam os prêmios"? A frase soa demagógica, mas geralmente é sincera.

Acontece assim. Quase todos os modelos fazem muitas reuniões internas durante o evento. E o último ou penúltimo desses encontros, invariavelmente, é a Hora H dos prêmios: os diretores devem anunciar os vencedores ao secretariado, que vai imprimir os diplomas antes do encerramento. Esse é um momento de tensão entre o SG, que exige um numero unificado de prêmios por comitê (geralmente três ou quatro) e os diretores, que querem premiar 8 ou 10 delegados se o comitê foi bom, ou 1 ou 2 delegados se o comitê foi ruim.

Algumas simulações até permitem que os diretores decidam quantos delegados serão premiados. Mas pouquíssimos modelos toleram que os diretores escolham se haverá prêmio ou não em seus respectivos comitês - nisto o AMUN 2005 foi uma exceção positiva. No MONU 2006, a UNPO apenas não teve prêmio porque os diretores desobedeceram frontalmente o secretariado e se recusaram a entregar qualquer menção. Foi arriscado. Se fosse o Exército, daria Corte Marcial.

Como os diretores raramente têm autonomia sobre os prêmios, surge uma camisa-de-força. Ou a mesa é obrigada a recompensar delegados fracos, ou opostamente ela é forçada a não entregar prêmio para excelentes modeleiros. Isso não é exceção, não. É a regra. Se você acha que todas as suas três ou quatro menções honrosas foram merecidas, think again...


Pereira:

Assino embaixo. Uma experiência assim na SiEM 2006 foi o que me motivou a optar pela substituição dos prêmios pelas avaliações individuais na SiEM 2007.


Motivo 6 - Prêmios são intrinsecamente injustos


Vamos lá, um brainstorm: o que faz um bom delegado? Nos MUNs brasileiros, estamos acostumados a valorizar principalmente a oratória, e em segundo lugar a capacidade de produção de documentos. Isso tudo é importante em uma negociação, mas não é o que realmente conta.

O que realmente conta, tanto na vida real como nas simulações, é o trabalho de backstage. O lobby que acontece durante o almoço e até nas festas, as discussões entre os P-5 no cantinho do Conselho de Segurança durante o unmoderated caucus, as resoluções escritas pelos principais delegados no quarto de hotel, etc.

Você realmente acha que os diretores, por mais onipresentes e oniscientes que sejam, são capazes de acompanhar isso tudo? Claro que não. Mesmo que a mesa se esforce, nunca vai conseguir avaliar corretamente a atuação de cada delegado. Prêmios são sempre injustos, e na melhor das hipóteses refletem as pessoas que se destacaram em uma ou duas habilidades especificas.

Pereira:

Aí eu discordo. Tudo bem, você tem que mostrar profissão de fé na existência de diretores que saibam escolher bem os delegados a serem premiados, mas há a possibilidade sim de prêmios serem muito justos. O problema é que ainda não sabemos estabelecer direito os critérios para isso, então premiamos as pessoas erradas.

Motivo 7 - Prêmios permitem a politicagem

Esse argumento pode irritar muita gente, mas vou evitar citar nomes e datas. Que fique claro que se trata de um problema estrutural, e não apenas algo que aconteceu em um ou dois modelos recentes.

Trata-se do seguinte: prêmios podem ser usados, e freqüentemente o são, como se fossem presentinhos. Para cimentar as boas relações entre o modelo ABCMUN e o modelo XYZMUN, o secretário-geral do modelo XYZMUN ganha um prêmio de melhor delegado no modelo ABCMUN, ainda que tenha sido um negociador fraco. Os modeleiros da Unitabajara são amiguinhos do pessoal da Unicreysson; por isso, os delegados da Unicreysson recebem o troféu de Melhor Delegação no modelo organizado pela Unitabajara, e vice-versa. Assim todo mundo fica feliz, não é?

Digam sinceramente: quem nunca viu isto?

Insisto, não me refiro a um caso em particular. Quase todas as principais universidades e centros modeleiros do Brasil já se envolveram neste tipo de politicagem, em maior ou menor grau. Já recebi reclamações de muita gente, de diferentes Estados, sobre esta prática. Mais importante, já ouvi diversos diretores e até secretários-gerais admitirem que os fatores políticos "pesaram um pouquinho" na seleção dos premiados. Obviamente é impossível calcular com precisão esse tipo de coisa, mas eu diria que nos últimos anos os critérios políticos determinaram 20 a 30% dos prêmios individuais, e 50 a 60% dos prêmios coletivos. Ou mais.

Não quero parecer moralista, mas a persistência deste fenômeno é uma vergonha para a Modelândia e macula a seriedade de nossas atividades acadêmicas. Existe apenas um jeito de impedir que prêmios sejam usados como moeda de troca política: extinguí-los.

Ah, e não adianta sonhar com a criação de "um critério transparente e objetivo de premiação" que possa inibir a politicagem. Quem garante a transparência deste critério? Vamos criar uma Missão Nacional de Verificação das Menções Honrosas sob o comando do Mohammed El-Baradei? Não, não. Enquanto existirem, prêmios sempre serão subjetivos. Portanto, sujeitos a manipulação.

Pereira:

Essas histórias sempre fizeram parte do underground da Modelândia: é aquela coisa que todo mundo acha que tem certeza, ou certamente acha, que acontece, mas ninguém jamais conseguirá provar ou admitir. Seria muito ingênuo, though, acreditar que os prêmios não têm peso político na Modelândia. Mas concordo que sempre serão subjetivos.

Ortega:

Quanto ao Motivo 7, concordo em parte. Na verdade, concordo completamente com o fato de os prêmios permitirem politicagem (vide MONU 2005), mas o final dos prêmios não acabaria com ela. Na verdade, a politicagem acontece muito mais escancaradamente na distribuição dos países que nas premiações. Pra mim, a a questão aqui é como acabar com o problema da politicagem como um todo nos Modelos. O prêmio é o vetor, não a doença.


Motivo 8 - É impossível criar e manter critérios coerentes de premiação

Sim, é impossível. Que categorias costumam servir (oficialmente) de critério? São principalmente quatro: coerência com a política externa, capacidade de expressão oral e escrita (incluindo position papers), conhecimento do tema e a tal "postura diplomática". Alguns modelos usam palavras diferentes, mas quase todos dizem avaliar esses fatores.

Agora vamos supor que os diretores são experientes, sabem distinguir vendidos (ler motivo 1), conseguem detectar delegados desonestos (motivo 2), não se metem em preconceitos coletivos (motivo 3) nem rixas pessoais (motivo 4), possuem autonomia para decidir sobre a quantidade de prêmios (motivo 5), não se dobram à politicagem (motivo 7) e até conseguem estar em todos os lugares ao mesmo tempo (motivo 6). Mesmo esses superdiretores não vão conseguir aplicar de forma coerente os critérios de premiação. Por quê? Pois cada um dos 192 países deste planetinha enxerga a diplomacia de modo diferente dos demais. O que um norte-coreano chama de "sigilo", um canadense chamaria de "mentira"

Os diplomatas do mundo seguem códigos éticos e culturais totalmente diferentes, e é impossível enquadrar toda essa diversidade sob o guarda-chuva da "postura diplomática". Simplesmente não dá pra avaliar com o mesmo critério.

Exemplo simples: imaginem um gentil e articulado embaixador do Myanmar, que colabora com o comitê e não ataca ninguém mesmo que seja acusado de crimes contra a humanidade. Ele é um bom delegado? Não! No entanto, seria um forte candidato a uma menção honrosa segundo as regras de todos os MUNs.

Notem a diferença entre política externa e postura nacional. Um bom delegado birmanês ou zimbabuense não apenas bloquearia qualquer discussão sobre os direitos humanos em seu país (= politica externa), mas faria isso de forma agressiva, brigando com trinta países ao mesmo tempo e chamando o Ocidente inteiro de imperialista (= postura nacional). No entanto, nos modelos brasileiros esse diplomata teria poucas chances de conseguir qualquer prêmio...

E os prêmios coletivos? Aqui geralmente pesam duas coisas: o total de prêmios individuais ganhos pelo país e a coesão da delegação. A primeira coisa é teoricamente fácil de somar, embora o calculo seja às vezes distorcido pelas considerações políticas que já citei. Mas como medir de verdade a coesão de uma delegação? Alguém estava em todos os comitês ao mesmo tempo? Na pratica esse fator é freqüentemente "esquecido" pelos secretariados. A Melhor Delegação, se não corresponder a uma escolha política do SG, pode acabar sendo um grupo Frankenstein, uma confederação de vendidos que provavelmente não estudaram juntos e talvez nem se conheçam direito. Assim era nosso grupo na SiONU 2005.

Mesmo que a Melhor Delegação realmente seja um grupo coeso de amigos modeleiros competentes, eles provavelmente se comportaram de forma muito heterogênea. O cara do Conselho de Segurança é malvado e chantageou todo mundo, a garota do Conselho de Direitos Humanos é meiga e distribuiu flores, et cetera. Coerência, cadê?

Pereira:

Talvez seja impossível entre diversos modelos, mas acho que dentro de um mesmo modelo é possível chegar perto de um critério que não permita numerosas premiações equivocadas.

Motivo 9 - Não adianta querer premiar os bonzinhos

Continuação lógica do anterior.

Certos modeleiros bem-intencionados encontraram uma estratégia alternativa e politicamente correta de premiação. O objetivo é evitar a vendidagem sem abrir mão dos prêmios. No lugar de recompensar os vendidos clássicos, que monopolizam o comitê para massagear o ego, a idéia é premiar os delegados cooperativos e altruístas - em suma, o "espirito diplomático" passa a ser O critério principal. Essa é a política oficial do WorldMUN, e tem sido informalmente seguida por um número crescente de modelos no Brasil. Por isso, a moda agora é distribuir prêmios para delegados novatos e calmos, não-vendidos, que representam paisecos e só falam de vez em quando, mas que possuem um avançado "espirito diplomático".

"Como os delegados da China e da Alemanha são vendidos e passaram o modelo inteiro brigando e fazendo teatro, vamos premiar o delegado do Luxemburgo, que não xingou ninguém!" - assim pensa o diretor de puro coração.

Isto é um erro. Recusar-se a premiar o líder do comitê conduz a premiações inverossímeis e ilegítimas, que apenas irritam o restante do comitê - não apenas o vendido que saiu de mãos abanando, mas também os delegados que consideram que o vendido deveria ter recebido o prêmio e foi sacaneado pela mesa. A cerimônia de encerramento fica cheirando a marmelada e a imagem do modelo sai arranhada.

Diplomacia não é o Fair Play da FIFA! O inferno pode estar cheio de boas intenções, mas a politica internacional não está! Não é o "espirito diplomático" que vai substituir outras qualidades mais importantes. Não é assim que a banda toca, meus amigos...

Pereira:

Não sei se concordo. Na maioria dos casos, espera-se de um delegado que ele seja minimamente respeitoso. Veja bem: na maioria dos casos. Exceções são bem essas que o Napoleão citou em um outro motivo: o Zimbábue nunca será bonzinho, nem a Coréia do Norte, nem a URSS, dadas as situações corretas. Mas acho que caberia confiar no bom senso da diretoria (again, eu tenho fé que o bom diretor existe). Mas tem um ponto válido que deveríamos discutir: "espírito diplomático" é se comportar como aquele modelo ocidental de diplomata, pomposo, elegante e bem-educado, ou é se comportar como o diplomata do país que representa na situação apresentada (i.e., ser malvado quando couber)?


Motivo 10 - Prêmios são absurdos

Back to the basics: o que significa a palavra "modelo"? O que você entende por "simulação"? Trata-se de uma imitação, um ersatz, um simulacro, uma recriação de alguma coisa, certo? E MUNs são exatamente uma recriação realista das negociações multilaterais nacionais e internacionais, não é mesmo?

Pois bem, em nenhuma negociação diplomática, em qualquer lugar do mundo, existe um prêmio para o "melhor embaixador", "melhor ministro" ou "melhor presidente". Imaginem o Nicolas Sarkozy, todo pimpão e sorridente, com a Carla Bruni a tiracolo, recebendo da Assembléia Geral da ONU o certificado de "melhor orador da sessão 2007". Não é absurdo? Então por que isso acontece nas simulações que organizamos?


Pereira:

Assino embaixo também. Ainda acho que o melhor prêmio pra qualquer delegado é aprovar a resolução do jeito que você espera que seja.


Ortega:


Discordo também do motivo 10. Tá bom, eu nunca vi o Kofi Annan chamando o delegado do Turcomenistão à frente pra receber uma menção honrosa, mas diplomatas são sim premiados, de outras formas, por seus próprios governos. Boas atuações podem render frutos pessoais aos delegados, e acho que é isso que as premiações dos Modelos querem emular.

Moral da história


Admito, existem algumas (poucas) virtudes nas atuais políticas de premiação, como a possibilidade de estimular o surgimento de jovens e talentosos modeleiros. Mas essas vantagens são esmagadoramente menos importantes do que as desvantagens dos prêmios.

Sei que o fim dos prêmios não resolveria automaticamente todos os nossos problemas acadêmicos, como a falta de delegados, o despreparo das mesas, guias de estudos fracos, etc. Mas seria um importante avanço rumo a uma Modelândia mais aberta, cooperativa, honesta e realista. Cada modelo é livre para fazer o que quiser a respeito, mas acho que a experiência de dez anos de MUNs é mais do que suficiente para demonstrar que prêmios são contraproducentes na maior parte dos casos.

Apelo para os delegados, diretores e secretários-gerais entre os leitores: em nome do bom-senso, mandem os prêmios para a Lata de Lixo da História!