O Ministro de 1a classe Antonio Patriota tomou posse no cargo de Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores hoje à noite no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Ele substitui o Embaixador Samuel Guimarães, que deixou o cargo para assumir outro posto no Governo Federal, o de Ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Carioca, Antonio Patriota tem 55 anos e era, até a última semana, o Embaixador do Brasil junto aos Estados Unidos. Não precisa nem dizer que esse é um dos cargos mais importantes na diplomacia brasileira, né =D? Ele deixa esse grande posto pra assumir outro posto muito importante, ainda mais que o anterior. Como eu disse no Twitter, a imprensa gosta de chamar o cargo de Secretario Geral de "vice-chanceler" ou "número dois do Itamaraty", subordinado, dentro do ministério, apenas ao Ministyro Celso Amorim, hierarquicamente falando. Acho que, pra imaginar um pouco de que rumo o Ministério deve tomar, vale citar um pouco daquilo que ele fez na carreira diplomática.
Antes de Washington, onde ele esteve desde fevereiro de 2007, Patriota também serviu nas representações do Brasil na OMC; em Nova York, para as Nações Unidas; Venezuela, China e outras OIs em Genebra. Em Brasilia, ele foi chefe de gabinete do Celso Amorim, além de outros postos de chefia no Palácio. O cara é graduado em Filosofia pela Universidade de Genebra, boa né?
Abaixo, listo alguns links de interesse pra quem quiser saber mais sobre as idéias e posições do novo Vice-Chanceler
* http://bit.ly/18rLH7 - Aqui, do portal R7 de notícias, íntegra do discurso do Embaixador na posse como SG, em 27 de outubro
* http://bit.ly/1Xmd5a - Estadao falando sobre a dança das cadeiras no Itamaraty ao fim do governo Lula. Interessante pra acompanhar a troca dos nomes.
* http://bit.ly/SngZg - "Quem é esse Patriota?", notinhas da Istoé Dinheiro em 2007, quando o Embaixador assumiu Washington. Notem que, de acordo com eles, a prioridade é o CSNU. Ele também já foi staff do Brasil no Conselho.
* http://bit.ly/4ufH4M - Também de 2007, Eliane Cantanhêde entrevista o Embaixador.
* http://bit.ly/35A0xF - Outra entrevista, com declarações sobre diversos tópicos.
Dessas notícias todas, comento brevemente só o discurso. Não conheço o Embaixador de ocasiões anteriores. No mais, ele me pareceu bastante leal à figura do Amorim, além de muito político, ao usar o nome do seu adversário na nomeação, se é que podemos chamá-lo assim, para cumprimentar aos embaixadores. Boa notícia aos wannabe-diplomats como eu, ele promete dar prosseguimento ao trabalho pela ampliação dos quadros no Ministério. Esperamos que sim, e espero chegar a tempo de tê-lo como chefe lá no alto da escadaria dos organogramas.
Não, não estou falando da fabricante de acessórios de banheiro.
Mais importante que a Copa do Mundo de 2014, muito mais importante do que as Olimpíadas de 2016, o Brasil foi escolhido para uma das vagas não-permanentes do Conselho de Segurança 2010-2011!
Mais uma grande vitória da nossa nação/potência emergente, conquistada a sangue, suor e lágrimas no campo de batalha da Assembléia Geral da ONU, certo? Ahm... Not really, no.
Como grande parte das votações/eleições que acontecem no âmbito de variegadas organizações internacionais, esta também era um jogo de cartas marcadas. Os cinco canditados (Bósnia e Herzegovina, Brasil, Gabão, Líbano e Nigéria) não tiveram nenhum concorrente direto às suas respectivas vagas regionais, e todos foram eleitos com esmagadora maioria de votos (o mais votado foi Nigéria, com 186 votos, e o menos votado, Líbano, com 180).
Há de se convir que não é surpresa vermos o Brasil eleito para o UNSC mais uma vez. Junto com o Japão, nosso país é o que mais vezes foi eleito para o Conselho de Segurança (10 vezes, contando com essa). E, afinal de contas, pleiteamos uma vaga permanente desde a Conferência de São Francisco.
Além disso, caso nossos leitores tenham acompanhado a Abertura da 64ª AG aqui no Representatives of the World, notaram que 9 entre 10 discursos de chefes de Estado/governo – desde nosso estimado Líder da Revolução Coronel Muammar al-Qadhafi até o presidente Nicolas "tô pegando a Carla Bruni" Sarkozy – mencionavam a necessidade de reforma do Conselho de Segurança para se adequar aos novos tempos.
Isso não significa, é claro, que a eleição foi uma barbada. Com certeza essa "candidatura única" do Brasil, que entrará na vaga da Costa Rica, é o resultado de uma pesada negociação por trás dos panos, e nossos diplomatas merecem todo o crédito pela eleição. Já dizia Milton Friedman que não existe almoço grátis – e com certeza a comida na mesa do UNSC é mais cara.
Confesso que demorei a vir escrever isto aqui, pois ainda pensava que teria alguma outra solução, que não a "aposentadoria". Porém, não havia outra solução. Eu pensei em escrever uma "carta-despedida" ou coisa do tipo, mas achei que seria extremamente brega. Então, darei um tchau (ou um até breve, que creio ser mais realista e também de maior vontade da minha parte) da forma proposta por esse blog: falando de uma simulação. E gostaria de falar sobre uma simulação um pouco mais específica do que as grandes MUN's, que podem ter de tudo.
Me despeço, até segunda ordem, do mundo modeleiro e deste blog, pois minhas prioridades deram uma guinada. A vida diplomática da simulação deu lugar à vida política da realidade. Entre outras coisas, meu tempo anda curto e no ano que vem serei candidato a vaga eletiva aqui em Brasília, o que tem tomado uma significativa parcela daquilo que é prioritário para mim. Mas quem sabe, um dia vocês verão em modelos Brasil afora, um deputado modeleiro! Por isso me despeço com o post que vem a seguir:
Seja um Deputado Federal por 3 dias. Diferentemente de outras MUN's que fazem comitês históricos, simulam Senado Romano e coisas do tipo, este modelo trata apenas dessa parte política. Esse é o grande atrativo do Projeto Politeia. Um projeto guiado por alunos do curso de Ciência Política da UnB que coloca alunos universitários de várias instiuições na pele de um Deputado Federal, propiciando treinamentos anteriores à simulação e mais três dias de trabalho duro. E acontece lá dentro da Câmara dos Deputados com toda a logística e o máximo de realidade!
Foram simulados 4 Comissões (Comissão de Educação e Cultura; Comissão de Direitos Humanos e Minorias; Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania; e Comissão Especial de Reforma Política) e 5 Partidos, proporcionalmente divididos entre 85 estudantes universitários de vários cursos da UnB, bem como da UFMT, UFRJ e do IESB (eu). Os partidos simulados foram: PMDB (30 deputados), PT (25 deputados), PSDB (10 deputados), Democratas (10 deputados) e PSB (5 deputados).
Foi uma experiência sensacional. Além de ficar nas comissões, onde pude defender meu projeto de Lei e peguei o trabalho mais pesado da simulação, sendo relator de 7 Projetos apensados (anexos, pois tinham conteúdos similares), pude respirar de fato, sentando nos mesmos lugares, usando os microfones, agindo como um legislador e recebendo o tratamendo devido. E tenho uma coisa a dizer: é muito cansativo ser um deputado! Nesses três dias pude ver que, se a pessoa quer fazer a diferença, tem que ralar MUITO!
Talvez por isso que muitos trabalham pouco e pouquíssimos trabalham muito. Mesmo assim, foi um cansaço que deu gosto, pois as leis estavam sendo feitas, discutidas e todos estavam com o espírito de fazer alguma diferença, representar a sociedade e trabalhar para ela, por ela! Aprendi que não é necessário fortunas para fazer este trabalho, muito menos de roubalheira. O que falta é amor à coisa! Amor ao Brasil e vergonha na cara.
Lá pude fazer parte da Mesa Diretora, sendo 1° Secretário da Casa e abaixo foi um breve momento presidindo os trabalhos.
Ficaram muitas amizades e um profundo aprendizado sobre o processo legislativo. Aprendi muito e me apaixonei mais ainda por esta vida, que anda tão em baixa, por conta daqueles que não pensam no coletivo, mas no próprio umbigo, infelizmente. A seguir deixo a matéria da TV Câmara que cobriu do início ao fim o evento.
Espero que gostem e desculpem pela extensão do post! Mas não sei quando poderei fazer outro nestas searas. Foi com muito pesar e dificuldade que resolvi dar este tempo e seguir meu sonho de vida. Espero que cada leitor e leitora aqui, bem como meus amigos redatores, possam seguir e alcançar os seus próprios! Por isso não digo adeus e não saio desse meio para sempre.
Até logo, queridos e queridas modeleir@s e aos queridos amigos redatores: Cedê, Napoleão, Pereira e W.A.; JP, Nogueira e Phil. Espero voltar a postar aqui em breve! Grande abraço a vocês!
Que eu fui ao GMUN vocês leitores do blog já sabem. O que vocês não sabem é como foi o modelo mais ONU possível. O Phil começou num post anterior a mostrar para vocês como foi essa experiência modelística única, e hoje eu vou tentar explicar mais um pouco. Se é que é possível.
Passei pelo mesmo problema de não ter como dizer às pessoas como foi o GMUN. Simplesmente não tem como. Pior ainda são as perguntas “ele foi melhor que os modelos brasileiros?”. Eu só consigo responder: “não sei!”. Parecem dois mundos completamente separados e incomparáveis.
Bom, para mim o GMUN começou efetivamente em Maio, quando rolaram as eleições para Official. Eu fui pré-selecionado e shortlisted para ser candidato, mas não votaram em mim e eu não fui eleito. Até então eu tinha desistido de ir, simplesmente não tinha grana para bancar uma viagem à Genebra. No meio do caminho, eu descobri que representaria a gloriosa Turquia no Primeiro Comitê da AG e no Conselho de Segurança, o que me deixou bem animado. No dia 13 de Julho, dois dias antes do meu aniversário, eu recebi a notícia (direto de New York) de que a Nestlé ia bancar minha passagem. E o melhor, nem pediram para eu passar a viagem inteira me entupindo de produtos da Nestlé!
Esse post é um oferecimento de Nestlé!
No mesmo dia 2 de Agosto eu embarcava feliz e sorridente para aquilo que seria a minha primeira viagem alhures. Quem me conhece sabe que eu tenho uma cara que lembra a de um membro pleno da Al Qaeda ou coisa parecida, por isso tratei de me vestir todo de US and A. Camisa dos Marines dos EUA, boné da NASA e no notebook um adesivo do Department of State. Funcionou XD
Meu vôo foi pela Tamancos Aéreos Portugueses, escala na cidade dos nossos descobridores: Lisboa. Vôo bem light, confortável, assistindo filme e voando de A330 na mesma rota em que, alguns meses antes, um A330 da AirFrance havia sumido, super supimpa. Depois de uma breve espera em solo lusitano, decolamos com atraso de 50 minutos rumo à Suíça.
E foi aí que a realidade me acertou na cara com um taco de baseball. Até então eu tinha saído do Brasil, num avião da TAP, com escala em Lisboa e fui até Genebra em um avião também da TAP. Ou seja? Só tinha lusofônicos ao meu redor. Ao desembarcar em Genebra eu lembrei que não falo francês e que estava finalmente fora do Brasil. Graças aos céus o controle alfandegário suíço é muito simples: você entra e ninguém ta nem aí pra isso. Como o Phil disse você tem que escolher entre duas portas. Uma vermelha que dá num corredor meio escuro; é a porta para quem tem algum bem a declarar. E uma porta verde que dava para o saguão do aeroporto. Eu, ressabiado, olhei e fiquei em dúvida: “porta com pessoas felizes no saguão ou a porta do corredor semi-escuro?”. Pessoas felizes.
Vamos ao GMUN. Como o Phil disse, primeiros dois dias foram de avisos, passeios pela ONU e uma passagem de regras bem muquirana. E é sobre as regras que eu queria falar um pouco. Eles REALMENTE simulam como a ONU funciona, ou seja, até as partes burocráticas e boring. Como a simulação era da Assembléia Geral, havia a sessão plenária com os discursos de abertura e votação de confirmação de agenda, assim como há na AG real. Convenhamos, ninguém vai vetar um tema que está sendo trabalhado o ano inteiro no modelo, até por que se ele for vetado simplesmente não vai haver tema para discutir. Achei mega desnecessário, mas foi bom para pegar o feel de como funciona a ONU for real.
O Comitê.
As regras de debate são simplesmente out of this world. Você só pode se pronunciar oficialmente UMA vez. O que a gente faz no Brasil é como se fosse um mega debate informal. Em uma comparação meio tosca, os nossos discursos iniciais são os únicos discursos oficiais que fazemos no organismo, tudo que vem depois é debate informal moderado de uma forma ou de outra. Foi muito estranho e difícil de se acostumar, já que NINGUÉM conseguia acreditar que só faria UM discurso. No fim conseguimos trabalhar com unmoderated infomal consultations e moderated informal consultations que funcionam exatamente como debate não-moderado e moderado, respectivamente. Outra coisa interessante, a lista de oradores é feita ANTES de começar a primeira sessão. Você se inscrevia diretamente com o Chairman, ou seja, ou tinha que parar o cara no corredor ou enviar um e-mail falando que queria se pronunciar.
O Conselho de Segurança.
Bom, eu não acerto na loteria por que não jogo. Sim, nós tivemos uma situação de crise com reunião do Conselho de Segurança. Em um determinado momento fomos TODOS chamados no meio da sessão do comitê para a sala da Assembléia Geral, onde a Secretária-Geral nos disse que havia uma situação se desenvolvendo na República Centro Africana, com direito a um vídeo filmado diretamente de Nova Iorque. E nesse ponto entra a minha maior crítica ao GMUN: os delegados deveriam ser os melhores do mundo. DEVERIAM, pois não são. Eu, em desespero fui correndo para a biblioteca da ONU e pesquisei TUDO que era possível sobre a República Centro Africana, TUDO. Deu tempo de imprimir, ler, fazer uma pesquisa gigante e voltar pro comitê antes do almoço.
Depois do almoço fomos chamados novamente para a sala da Assembléia Geral, onde assistimos a um novo filme, falando que a situação estava se deteriorando e havia a possibilidade de que rebeldes tomassem a capital do país. Nesse momento chamaram o Conselho de Segurança para uma reunião informal e preliminar. E aí a coisa começou a degringolar. Ninguém fazia idéia do que estava acontecendo, alguns não sabiam onde ficava a República Centro Africana, e eu me recusava a acreditar que fui o único que se preocupou em estudar o caso depois do primeiro vídeo. A reunião foi basicamente: “eu não sei nada sobre a RCA, então comofas?”. Até o ponto em que a Presidente, United Kingdom, teve que adiar a sessão para o fim da tarde, a fim de que as pessoas pudessem estudar alguma coisa. Aproveitei para conversar com alguns delegados, passando pra eles o que eu havia estudado, etc.
No fim da tarde na nossa reunião, parecia que tudo estava certo. As pessoas (de posse da pagina da Wikipedia sobre a RCA) conseguiram discutir alguma coisa e eu fui pro Hotel com a esperança de que as coisas saíssem do papel.
No dia seguinte a catástrofe me esperava. Como sempre, em reuniões do CS, o objetivo final de uma crise desse tipo é uma missão de paz. O problema é: ninguém fazia idéia de como o CS trabalhava e criava uma missão de paz. O procedimento, o mandato, nada! Quando eu comecei a falar de SOFA eles então acharam que eu era um ET. Me irritei tanto com os delegados que em determinado momento eu simplesmente me levantei e fui embora. Peguei o computador e fui escrever uma resolução. Voltei para a próxima sessão, em silencio, enquanto as pessoas percebiam que não iam chegar a lugar nenhum, enquanto isso eu continuava a escrever uma resolução. Mais pro fim, quando as pessoas descobriram que a solução era realmente fazer a missão e que ela não podia ser feita nos moldes que eles estavam propondo alguém fez um comentário: “mas a gente não tem mais tempo para fazer uma resolução”, foi a minha deixa “mas eu já tenho uma aqui 95% pronta.” Eles amaram a resolução, estava tudo certo, até aparecer a Secretária Geral com a sugestão mais descabida possível.
Para explicar isso precisamos entender a RCA, ela faz fronteira com Darfur e lá o fluxo de refugiados é muito grande. Para piorar, o país é, segundo especialistas, menos que um Estado Falido: é um Estado na UTI. Há uma missão da ONU lá, a MINURCAT, que cuida dessa fronteira com o Sudão. O problema é que a MINURCAT não recebeu nem metade do contingente aprovado pelo CS, o que significa alguns 1000 homens. A idéia da SG era retirar parte do contingente da MINURCAT que fica na parte leste do país, e mandá-los sob um novo mandato para a região oeste (onde estavam sendo as revoltas). Isso simplesmente não faz sentido, enfraquecer uma missão já enfraquecida e criar uma nova missão em região de conflito, com o objetivo de usar a força contra insurgentes com somente uns 200 soldados. Os delegados, para variar, tomaram a sugestão da SG como uma verdade universal e eu fui obrigado a incluir uma clausula com essa coisa absurda. Pelo menos o tempo acabou antes que pudéssemos votar qualquer coisa. Na realidade o CS não teve nenhuma reunião oficial, não houve discurso oficial, só informal consultations com uma proposta de draft resolution (que não chegou a ser draft de verdade).
E esse foi o CS do GMUN. Algo meio bizarro, mas divertido anyway. Consegui escrever a mais bela resolução da minha vida modelística, pena que ela não foi usada. Se valeu a pena? Claro que valeu.
Mais detalhes, se é que há algum, em um futuro próximo nesse mesmo batcanal.
Bem amigos, mais uma vez, o Representatives of the World traz a você, leitor, com (alguma) exclusividade, a cobertura dos discursos de abertura da 64ª Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas! Fique ligado e não perca, nossa cobertura e o evento começam às 10:00am, horário oficial de Brasília!
Update: Obrigado por acompanharem o primeiro dia da 64ª sessão da AGNU conosco, nosso webcast não seria a mesma coisa sem os comentários de vocês!
O Modeleiro Viajante é uma série de posts que tratam da incrível experiência da ida (e, quiçá, volta) a um modelo de fora do estado. Leia o primeiro post aqui.
De uns tempos pra cá, uma cena vem se repetindo comigo nos coffee-breaks modelândia afora. Quando a pessoa que está conversando comigo olha para minha credencial e lê meu nome (convenhamos, ele não é lá muito comum em terras tupiniquins), a pergunta que se segue é "aaah, você estava naquele modelo em Genebra? Como foi?"
Vejam bem, não é por uma questão de antipatia, mas eu geralmente respondo com um curto e grosso "foi f*da". Afinal, a experiência toda iria demorar algum tempo para ser relatada, e a comida do coffee-break é finita. Mas, é claro, a viagem merece um pequeno relato.
Diplomata que é macho viaja de econômica. Por 11 horas. Seguidas.
A burocracia imigratória foi impressionantemente... Rápida. Consistiu basicamente no jovial senhor guardião das fronteiras européias olhando minha cara, meu passaporte (brasileiro, diga-se de passagem) e resmungando algo do tipo bienvenu en France. Gostei, pelo menos o nome complicado serve para alguma coisa.
Após uma rápida ponte aérea até Genebra, fui mais uma vez vítima da (ausência de) burocracia aeroportuária. Vejam vocês que a seção de "nenhum bem a declarar" da alfândega suíça se constitui de uma porta. De saída. Para o terminal. Nada de guaritas, nada de formulários, nada de apertar botão e torcer pra luz verde acender. Bom brasileiro que sou, passei meio ressabiado - quando a esmola é grande, o santo desconfia.
Hotel com opcional dignidade
Pulando para o modelo, os dois primeiros dias foram dedicados a palestras e instruções do Secretariado. Logo após o credenciamento, tivemos uma visita guiada no Palácio das Nações e pudemos estar em salas que fazem parte da história dos MUNs. Tivemos também uma exposição com representantes de vários organismos multilaterais baseados em Genebra, como a OIT e até mesmo o CERN!
Sala do Conselho de Direitos Humanos
Reforma da ONU
Sala da Conference on Disarmament. Antiga sala do Conselho da Liga das Nações.
Maoi! Quem quer peacekeepers?
O Secretário Geral não pôde estar presente, mas gravou uma vídeo-mensagem para a cerimônia de abertura. Tivemos também a apresentação de um coral africano típico (não, não cantaram "Baba Yetu"), além dos vários discursos de praxe.
Disarmament and International Security - 1º Comitê da Assembléia Geral
Como dito em um post mais antigo, eu representei a Federação da Rússia no 1º Comitê da AG. Isso teve suas vantagens: por exemplo, os russos eram mais simpáticos comigo, dentro da medida de sua frieza característica. Mas a conseqüência mais importante disso foi que eu fui convidado a participar de uma reunião com o representante permanente russo em Genebra.
Junto com os russos, atravessei a rua que separa o Palácio das Nações da Missão Permanente da Federação da Rússia (sério, é só atravessar a rua mesmo). Enquanto éramos levados a uma enorme sala de reuniões, os russos fizeram o favor de me ensinar qualquer coisa em russo para falar com o embaixador (convenhamos que não é a melhor política iniciar o diálogo com o embaixador russo em inglês):
Dobry den! Uvazhaemyy gospodin posol. Eto bol'shaya chest' dlya menya, pzisutst vovat na etoy vstrech'e.
Pelo menos era isso que estava escrito no papel. Enfim, quando o embaixador chegou, ele começou uma palestra de uma hora sobre política externa russa. Em russo. Imaginem vocês que foi muito proveitoso. Uma das meninas que estava me ajudando, a Aneliya, disse a ele que eu era brasileiro e que estava representando a Rússia no GMUN. Eu juro que tentei falar a frase inteira, mas tudo o que saiu foi "Dobry den!", esqueci o resto. Ele, muito gentil, falou ok, you can speak in english.
No final das contas, a visita foi bastante interessante. Pude conversar com o embaixador russo na Conference on Disarmament e tirar umas dúvidas sobre política externa diretamente da fonte. Além disso, ainda ganhei dois presentes dos russos no final do modelo: um doce típico e uma colher decorativa (tá, eu sei, mas para mim tem valor sentimental).
Considerando tudo, foi uma ótima experiência. Vou deixar outros detalhes do MUN para futuros posts e para o camarada JP, que representou a Turquia no 1º Comitê e no Conselho de Segurança!
Uma experiência sociológica e antropológica. Só assim posso definir a minha semana em Brasília participando do XII AMUN depois de ter largado dessa vida de vício por quase um ano sem participar de modelos e depois de um ano e meio de formado. Mas não pude recusar o convite feito pela delegação gaúcha e lá fui eu para o Conselho de Segurança representar a Rússia...
A primeira (e chocante) impressão que tive foi a imensa diferença de idade. Sério, eu tava me sentindo o avô da galera! Um bando de delegados que não tinham visto a queda do Muro e que até pouco tempo atrás eram meus delegados na SiEM... até aí tudo bem, mas não saber o que é um pogobol... FRANCAMENTE! A modernização também chegou para ficar... Ao invés de bilhetinhos, todos os delegados se comunicam pelo MSN ou Twitter; no meu primeiro modelo, apenas dois delegados tinham computador (e a mesa, nenhum!).
Brincadeiras a parte, o age gap foi o que mais me marcou; grande parte do pessoal está no primeiro ou segundo ano de faculdade, com algumas participações em modelos de Ensino Médio nas costas. Uma senhora faca de dois gumes: por um lado, essa juventude é justamente o que o cenário modeleiro precisa para se renovar e enterrar once and for all certos fantasmas do passado; por outro, uma falta de experiência em certos assuntos acaba por engessar certas possibilidades que apenas deixam modelos mais interessantes de se participar.
Foi com um tanto de surpresa que vi um grupo de mais ou menos 15 delegados se reunir ao redor de mim que nem escoteiro ao redor da fogueira ao ouvir “Cara, ele tava na Babá Egípcia!”. Eles não faziam a menor idéia do que aquilo era, mas sabiam que significava algo definitivamente ruim; os ecos dos tropeços do passado ainda são ouvidos hoje, mesmo que bem apagados. Muita coisa já foi feita para evitar futuros erros, mas em alguns aspectos estão exagerando; não permitir Friendly Ammendments (ou nem saber o que elas são) já é um pouco xiita, fala sério... Eu sei que o Secretariado deve sempre se preparar para o pior, mas nem tanto, né?
Porém, esses são tropeços inevitáveis que são corrigidos facilmente numa próxima edição. O que me deixou realmente incomodado foi a permanência de dois pecados capitais na organização de modelos: a falta de intercâmbio e a política de prêmios.
A grande quantidade de novatos, aliada a parca participação de modelos fora do estado natal leva à uma estagnação de interpretação de regras de procedimento e de criatividade na hora de pensar temas de discussão e crises. Resultado: morosidade e reclamações de head delegates mais experientes.
Quanto aos prêmios, já sou da opinião que eles deveriam ser extintos há muito tempo. Mas já que alguns insistem em mantê-los, apenas peço: Um pouco de coerência, por favor! Dar prêmio a delegado que jogou a política externa no lixo ou que nem seria elegível segundo o award policy só faz diminuir a credibilidade acadêmica da organização.
Nem tudo está perdido, no entanto. Não escrevi esse artigo para ficar falando “no meu tempo era diferente...” nem ficar botando defeito em todo mundo. Há sim uma nova geração que está de parabéns em todos os modelos que ainda existem no Brasil e que podem continuar mandando muito bem; só precisam lembrar das coisas boas e ruins que foram feitas anteriormente e promover maior cooperação entre faculdades e alunos, porque a receita para o desastre nesses casos é fechar-se em si mesmo e achar que é suficiente (ou pior, achar que é melhor assim).
E é isso! Um abraço a todos e desejo muito boa sorte a todos que começam e continuam a modelar.
Colaboração do leitor e Modeleiro Bruno "Google" Almeida.
Estamos convocando colaboradores para a biblioteca de Guias de Estudo! Mais detalhes sobre a empreitada aqui, no post original. Para colaborar envie o(s) Guia(s) de Estudos para o e-mail correiodiplomatico@gmail.com