domingo, 27 de maio de 2007

Poder (e modelos) para o povo pobre

Este blog não é um espaço de propaganda modelística, mas eu não poderia deixar isto passar em branco.

Surgiu do nada, na minha caixa de emails, um sujeito misterioso me convidando para um certo Nigerian International Model United Nations, que acontece em novembro na cidade de Abuja. A simulação em si tem alguns comitês malucos que discutirão a redução de acidentes nas estradas (hm!), mas o que me chamou a atenção foi a invitation letter. Puro ressentimento pós-colonial com tempero dos anos 1960. Cito: "in Europe there are now lots of students engaged in this sort of activities, but (...) very few people are willing to go to those places in which economical, social and polital (sic) problems are sharper".

Taí. Modelos da ONU são coisa de rico?


Vocês lembram do famoso verbete da Wikipedia "Regional organizers and events of Model United Nations"? Recentemente ele foi apagado, pois era pura propaganda, mas sobrevive intacto no meu HD. Era uma lista de quase 300 modelos da ONU. Quantos na África subsaariana? Zero.

A UNA-USA mantém o mais completo calendário de simulações que existe, e cadê a África? Além do dito modelo nigeriano, aparece apenas um MUN feito pelas escolas internacionais de Lusaka - leia-se, pelos filhos de diplomatas europeus e de funcionários do Banco Mundial. Também existem ao menos três modelos sul-africanos, cujos organizadores, na maioria, são afrikaners bem branquinhos. Alguns deles foram ao AMUN 2005.

Pode parecer uma tremenda hipocrisia falar em exportar modelos da ONU (o que me lembra a "exportação da democracia") para regiões miseráveis, onde nem sequer existem remédios, escolas e empregos em quantidade e qualidade decente. Acontece que modelos não são um mero passatempo para turistas e/ou nerds e/ou curiosos com muito dinheiro no banco.

O Brasil contém muitas pequenas Áfricas em suas metrópoles. Elas estão alienadas da modelagem. Sim, existem exceções, e o caso mais óbvio é o Global Classrooms, voltado para escolas públicas suburbanas paulistas, favelas inclusive. Outros modelos para secundaristas mantém cotas ou isenções para alunos de escola pública. Os motivos dessa generosidade variam bastante: interesse social sincero, desencargo de consciência, campanha de relações públicas para conquistar patrocinadores ou simples necessidade de arranjar delegados, tudo conta.


Não acredito em caridade, tampouco sou idealista, mas creio em resultados. Sem nenhuma demagogia, já vi a vida de muita gente humilde mudar com modelos da ONU. Para quem não tem nenhuma perspectiva de futuro, qualquer oportunidade pessoal e profissional pode ser um enorme estímulo - mesmo quando se trata de algo relativamente pequeno, como uma simulação das Nações Unidas. Isso traz autoconfiança, que é uma das chaves para derrotar a pobreza. Não apenas a pobreza material, aliás.

Estou falando bobagens? A modelagem deveria priorizar a inclusão social, ou tudo isso é conversa para boi dormir e MUNs são atividades inerentemente elitistas? Opinem.

8 comentários:

  1. Respondendo ao que você perguntou:

    Modelagem possui uma função social avassaladora, e PODE ser intrinsecamente elitista.

    Isso pode parecer uma contradição em termos, mas não é.

    Pra começo de conversa precisamos subdividir tipos de modelagem. 1 - A modelagem como um todo, 1.1 - A modelagem universitária brasileira, 1.2 - A modelagem secundarista, 1.2.1 - Modelo Global Cl. (simulação secundarista beneficente para população de baixa renda), 1.2.2 - Simulação secundarista normal.

    Deve soar um exagero dividir nisso tudo, mas o meu ponto é que a modelagem universitária brasileira - essa que a maioria de nós participa - é uma atividade altamente elitista e pronto. Pouca gente tem capacidade financeira pra ir a 5 modelos em outros estados. Mesmo achando que modelagem não é tão caro quanto nossos detratores alegam ser, podendo facilmente ser experimentada sem que você venda sua alma (menos no caso de Napô, ele vendeu até a alma do cachorro), é preciso reconhecer que modelagem é um troço caro. Ternos, hotéis luxuosos, restaurantes.

    Mas por outro lado, existe uma parcela da simulação (o que eu defini como 1.2.2) que é o oposto disso. Pra pessoas que usufruem essa simulação, ela não é um luxo burguês, é uma oportunidade de mudança de vida. É ser levada a sério nem que seja por alguns dias.

    Esse tipo de coisa não tem preço. Por isso que eu acho que simulações (não só da ONU, frise-se) deveriam ser parte da política pública de educação.

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  2. Acredito em modelos como transformadores de pessoas, porque certamente para MIM fizeram muita diferença - social, pessoal, interpessoal, educacional, motivacional, etc.

    Modelo é melhor que qualquer livro de auto-ajuda.

    Projetos como Global Classrooms devem existir no Brasil inteiro.

    Se é verdade que a educação transforma as pessoas, como mostrou a Coréia do Sul; e se é verdade que a boa educação é barata, como mostra o Claudio de Moura Castro, então os modelos são formas baratas e muito eficazes de educar - hence, transformar as pessoas.

    2) Modelos ensinam:
    - como política pode ser algo sério e organizado, sem deixar de ser sujo;
    - a assumir pontos de vista diferentes, defender opiniões que não são suas;
    - a ouvir e a ser ouvido;
    - como funcionam as organizações que deveriam prestar contas pra gente;
    - que toda reunião NA VIDA (de condomínio, no diretório acadêmico, na empresa, etc.) tem que ter pauta e horário pra acabar;
    - que toda discussão é melhor com coisas por escrito;
    - principalmente: COMO SE VIRAR, pesquisando, correndo atrás de informações, e, durante o evento, como correr atrás de aliados e redigir coisas.

    3) Existe um elitismo no Fantástico Mundo dos Modelos(tm) sim - não apenas como um todo (renda necessária), mas também as panelinhas internas.

    Quero crer que com a expansão acelerada e desenfreada dos modelos no Brasil, e com canais abertos como a ModSim e mesmo este RoTW, a moçada possa se conhecer sem intermediários, e isto se reduza.

    A biblioteca virtual que vamos criar, com Guias e estatutos e o que conseguirmos arranjar, também vai permitir que as pessoas não precisem reinventar a roda.

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  3. MUNs não são necessariamente elitistas, e nem podem ser - se fossem, morreriam rápido. Abuja e o Global Classrooms estão aí para provar isso.

    O que acho é que MUNs são elitizantes de certa forma, however. Participar de um MUN muitas vezes requer um esforço ou mesmo uma oportunidade que nem todos têm - projetos como o GC e o AbujaMUN vêm de forma muito nobre corrigir isso. Mas uma vez agarrada essa oportunidade, as pessoas que levam a sério o aprendizado que se tira de um MUN podem muito bem ser a futura elite - e não no sentido pejorativo muitas vezes (burramente) empregado por demagogos mundo afora.

    Por elite quero dizer aquele grupo seleto que, independentemente das dificuldades ou das origens, se tornará influente de uma forma ou de outra no ramo que optar trabalhar e estudar. Educação é plantar sementes, e MUNs podem plantar um jardim inteiro se forem bem aproveitados.

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  4. Isto de um dos 4 falar e os outros 3 comentarem faz a gente parecer o Manhattan Connection, ou o Pasquim =p

    Claro, na grande maioria posts tem mais gente "do público" comemtando.

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  5. O que vem a ser o AbujaMUN?

    Eu achoq ue seria interessante uma entrevista com o responsável executivo pelo GC. Não os modeleiros organizadores, mas o "dono" do modelo. Pre sentir o que eles acham da modelagem.

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  6. Manhattan Connection, haha...

    Eu acho perfeitamente possivel expandir o padrão Global Classrooms de modelagem para outras cidades brasileiras. Talvez não com a grife GC, que pertence à UNA-USA, mas com o mesmo espirito. A "dona" mundial do GC é uma filipino-americana que foi minha chefe no ano passado, a Glenda. Pode ser o caso de fazer uma entrevista com ela, mas ela diria basicamente o que esta em www.globalclassrooms.org . Perhaps.

    Eu faria uma ponte entre o que disseram o Cedê (educação transforma) e o Pereira (educação elitiza). Os dois estão certos. Em qualquer lugar existem lideres e liderados, o que não é ruim, desde que as oportunidades para ascender à liderança estejam disponiveis para todos. Em outras palavras, alguns modelistas podem usar essa ferramenta para se tornar a futura elite, enquanto que outros vão extrair dos MUNs conhecimentos profissionais e pessoais de outro tipo, ie, as coisas que o Cedê listou. Enfim, todo mundo sai ganhando. Não é soma zero.

    (WA, não existe AbujaMUN - esse é o nome que o Pereira deu ao modelo da Nigéria, o NIGMUN)

    (Afinal, como colocaremos em pratica nossa biblioteca de guias e documentos? Precisamos achar um bom espaço de hospedagem e começar a organizar a chamada pra que o POVO mande seus arquivos)

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  7. Modelos são, na maioria dos casos, elitistas. Garanto que a maior parcela da população não tem 100 reais para gastar nesse tipo de coisa. Eu não tenho. Sobrevivo modelando na base de vaquinhas e mto suor. Enquanto já ficou provado que é perfeitamente possível fazer um modelo com 40 reais por inscrição e fechar com saldo positivo no caixa, a tendência dos 10 reais a mais a cada ano continua.

    O problema é que a maioria das pessoas não consegue perceber que faz parte de uma elite. Aí realmente é difícil dizer q modelos são elitistas, pq pra eles aquilo é normal. Fui aluno de escola pública e quase não consegui formar delegação disposta a pagar 90 reais do ONU Jr 2006. Quando a coisa é fora do estado então, nem se fala...

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