domingo, 27 de abril de 2008

Vamos colocar o carro na frente dos bois!

Recentemente participei pela segunda vez do Moscow International Model United Nations, desta vez como co-diretor do Security Council.

Não vou entrar em detalhes porque o MUN foi muito parecido com a edição do ano passado, que descrevi aqui no blog modeleiro. A maior diferença é que desta vez o secretariado trouxe um time peso-pesadíssimo de palestrantes, incluindo Hans Blix, Mahmoud Abbas e Yevgeny Primakov, o que reforçou o profissionalismo do modelo mas também encheu a faculdade de agentes do FSB.

(eu quase fui estrangulado por 70 guarda-costas palestinos quando apertei a mão do Abu Mazen com força demais, mas essa é outra história)

Um presidente sem país

O que me interessa aqui é falar sobre uma grande diferença nas regras de procedimento, algo que vira do avesso toda a dinâmica de uma simulação da ONU: no MUN de Moscou, assim como em muitos outros modelos europeus, a resolução é formulada/apresentada no início dos debates e não no final. Os delegados devem apresentar suas draft resolutions ao final da segunda sessão - são oito. Eles vão escolher qual texto vai servir como base de trabalho para o UNSC, e depois disso passar todo o resto do tempo brigando pelas emendas.

Ok, no ano passado eu já citei isso tudo, mas agora quero lançar a pergunta que ficou faltando. Daria certo no Brasil? Dois aspectos determinam a resposta: o realismo e a viabilidade (ou "simulabilidade").

Primeiro, o realismo. Na ONU de verdade, e particularmente no Conselho de Segurança, as resoluções são preparadas com antecedência. Elas às vezes chegam prontinhas de Washington, Moscou ou Pequim, fato que transforma os embaixadores (inicialmente!) em meros mensageiros de seus ministros ou presidentes. Então o UNSC decide (informalmente!) qual texto vai ser adotado como base das negociações. Depois se segue a fase decisiva, quando os embaixadores brigam (secretamente!) para emendar o texto inicial. Apenas no último momento as portas são abertas para a imprensa, os delegados votam a resolução e, se for o caso, fazem pronunciamentos que serão devidamente registrados em seis línguas no site das Nações Unidas.

Como vocês certamente notaram, não é bem isso o que acontece nos modelos da ONU brasileiros. Verdade seja dita, o nosso procedimento padrão em UNSC (uns 10% do tempo total são usados na adoção da agenda, 60% nos debates formais e informais sobre o tema, 25% nas emendas e 5% na votação final - isso sem contar eventuais crises) não tem nada a ver com a vida real. Nos MUNs brazucas, o foco é simplesmente deslocado das ações concretas (i.e. a resolução e suas cláusulas e emendas) para a filosofia e a retórica (i.e. os discursos pomposos).

A "culpa" dessa falta de realismo não é nossa, e sim dos modeleiros americanos de Harvard, cujas regras foram adaptadas no Brasil a partir do AMUN 1998. Seja como for, precisamos admitir que nossas simulações não simulam lá grande coisa.

Segundo ponto, a viabilidade/simulabilidade. Isto é algo mais subjetivo. Os modeleiros brasileiros são atores por excelência, acostumados ao drama e à grandiloqüência, e talvez estranhassem essas regras russas castradoras. Se a resolução fosse apresentada no começo, o que seria das divertidas (embora inúteis) trocas de farpas diplomáticas que povoam a Modelândia?

Mind you, em Moscou os delegados ainda tinham bastante tempo para brigar sobre as emendas e fazer algum teatrinho. Ninguém sai insatisfeito. Mais importante, neste sistema o centro das atenções é a solução, não o problema. A resolução, não a análise do tópico. O comitê deixa de parecer uma sessão de terapia familiar e passa a ter a cara de um processo pragmático de resolução multilateral de conflitos. A ONU deveria ser assim, certo? Nossos modelos também.

Aqui vai mais uma proposta concreta de Representatives of the World para os jovens modeleiros do Brasil afora: experimentem colocar o carro na frente dos bois. Exijam que todos os delegados tragam resoluções (talvez substituindo os documentos de posição) prontinhas para o comitê, e vejam se funciona. Depois me contem se deu certo.

PS: o raciocínio acima vale principalmente para o UNSC, mas pode se adaptar a certos outros comitês também, onusianos ou não, mutatis mutandis.

12 comentários:

  1. Com os modelos no Brasil entrando em sua segunda década, está mais que na hora do convite ser aceito! Vou fazer o possível para implementá-lo em outubro, no meu comitê do MINI.

    Bom convite, Napozêra!

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  2. Nessa hora nos perguntamos quantos secretariados de modelos lêem este blog. É uma mudança de visão que podemos arriscar, só precisamos de alguém disposto a começar o processo.

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  3. Eu esqueci de dizer algo importante: no UNSC de Moscou as emendas eram consideradas medidas não-substantivas, portanto não-vetaveis. Apenas a resolução final poderia ser vetada. Isso impedia que o P-5 tivessem um controle exageradamente grande sobre o debate; eles determinam o resultado final, mas não conseguem monopolizar o processo.

    Na vida real as emendas nunca são votadas, pois são discutidas informalmente.

    E essa roupa ridicula no Mahmoud Abbas tem um motivo: durante o modelo ele também recebeu um titulo de doutor honoris causa pelo MGIMO, o instituto que organiza a simulação.

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  4. (deveria ser "os P-5 não conseguem oligopolizar o processo", mas enfim)

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  5. Excelente idéia, achei muito interessante e penso que não seria difícil aplicar, desde que esteja bem explicado previamente no próprio guia de estudos do comite.

    Inovações, sejam bem vindas!

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  6. Em 2006, o UNSC do AMUN tentou adotar esse procedimento, at least to some extent. Antes do AMUN começar, os diretores pediram aos delegados que fossem pra simulação já com a proposta de resolução que gostariam que fosse discutida pronta. Só que a tentativa não deu mto certo... eu e minha dupla fomos com uma resolução pronta, mas nào lembro de nenhuma outra que o tenha feito. Aí, não sei se foi um problema de comunicação e mtos delegados sequer ficaram sabendo que deveriam apresentar resoluções logo no começo (porque houve problema de delegados que não receberam os e-mails dos diretores); se foi um problema na hora de implementr a idéia e mais delegações até levaram resoluções prontas, mas elas simplesmente não foram colocadas em debate por não ser o procedimento "padrão"; ou se realmente o pessoal simplesmente não se deu ao trabalho de preparar resoluções.

    De qualquer forma, é uma sugestão interessante e que acrescenta realismo à simulação. Por outro lado, essa abordagem pode trazer prejuízo pro modelo enquanto ferramenta pedagógica, na medida em que pode gerar um pragmatismo excessivo ao mudar o foco das discussões do problema pra solução e minimizar. Enfim, be as it may, acho que vale a pena experimentar, sim...

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  7. Eu estava nesse UNSC do AMUN 2006 como USA, e se me lembro bem eu não recebi o e-mail pedindo a resolução prévia... Oh well.

    De qualquer forma, a experiência é bem válida, e pessoalmente gostaria de participar (como delegado ou diretor) de um comitê assim, mas se for adotada em larga escala, não saberia dizer exatamente a extensão do impacto. Nossa cultura mais discursiva e grandiloqüente não deve desaparecer tão cedo (if ever), e mesmo em um cenário que as discussão tenha que ser mais prática essas técnicas de discurso ainda são válidas.

    Mas não acho que isso vá prejudicar a questão pedagógica - estaríamos trocando um tipo de aprendizado por outro; sairíamos de uma simulação mais focada na limitação do problema a ser resolvido para uma que vai direto para a resolução do problema. Mas até aí, as duas discussões continuariam presentes mesmo assim...

    Enfim, acho que é algo que realmente tem que ser posto em prática para termos uma idéia melhor dos efeitos na Modelândia.

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  8. Lendo o comentário da Amanda, lembrei. A Indonésia (eu e Barbara) recebeu um e-mail do nosso MRE para fazer "resolução do tópico que queríamos que fosse aprovado", então eu e Barbara trouxemos um draft da resolução de gênero. Foi uma das coisas fundamentais para que uma resolução fosse feita e discutida, e o tópico fosse extendido por mais duas sessões. Houve resolução, com 13 votos a favor, 1 abstenção e o veto russo.

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  9. Os eventos narrados acima são do XAMUN (AMUN 2007).

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  10. É uma ótima idéia. Pelo que ouvi falar na Sinus, existe um modelo (do colégio das Nações) que faz algo um pouco parecido. Acredito que isso é prato cheio para diretores que desejam ter delegados estudando bastante, já que cortaria bastante delegados não muito interessados. Sem contar o realismo que o comitê passa a ter. Acredito que possa ser um ótimo meio alternativo para comitês como o UNSC.

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